Escultura

A tradição diz que o Grêmio, dos gaúchos, é time de meter medo. É chamado de imortal e, às vezes, parece o personagem saído de um conto de Jorge Luis Borges, que com a faca levanta um moreno, arroja-o como saco de ossos, o vê agonizar, agacha-se para limpar a lâmina, desata seu cavalo e monta devagar, para que não pensem que está fugindo.

Pois digo-lhes que o Atlético Paranaense ontem na Baixada foi capaz de submeter a tradição, a imortalidade e esses os gaúchos que se confundem com os personagens de Borges.

O Atlético ganhou por 2×0, sem nenhum trauma, sem um chutão, sem agarramento ao acaso, porque no futebol jogado por humanos, usou uma virtude incomum: absolutamente perfeito.

Sob o aspecto tático, jogou o que não joga há muito tempo, com os ditames de Autuori, com geometria, intenso e tranquilo. O quadrado com Otavio, Hernani, Vinicius e Nikão, à certa altura, no segundo tempo, indo além do encanto, comoveu em razão da sintonia de variáveis para mudar e criar o jogo. Quando à eles se uniu André Lima, é que se alcançou o estado de perfeição. Tudo no Atlético era do que notável. A vitória passou a ser apenas o corolário que o futebol quando sai à procura do justo.

O aspecto individual foi absorvido por esse brilhantismo do conjunto. Mas esse não seria brilhante se Otávio, Hernani, Vinicius, Nikão e André Lima não jogassem com técnica e inteligência.

Marcelo Grohe evitou a goleada, mas não evitou a vitória do Furacão no segundo tempo, com os gols de Hernani e André Lima, esse de rara beleza, pela coragem de correr o risco do erro. Ganhar do Grêmio, sem alienação, por imposição superior de técnica e de individualidade, não é para qualquer um e a qualquer hora.

O melhor do jogo encontro fora de campo: Paulo Autuori, o treinador atleticano. Todas as boas lembranças nós guardamos. Não me lembro de uma apresentação, há anos, do Furacão como a de ontem sob o aspecto tático.

Uma aula de futebol, do bom e do melhor.

Michelangelo levou o seu David à perfeição, mas não faria esse Furacão, que ontem, Autuori esculpiu.

Essa coluna é uma homenagem ao neurocirurgião Luiz Roberto Aguiar.

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