Doutor Petraglia

Obsessivo para voltar a ter o poder absoluto do Atlético, Mário Celso Petraglia fez coisas que só um mortal pode fazer: sorriu e chorou, abraçou e beijou, fez acenos na chegada e na partida. Exemplo clássico da maior das ambições humanas, que é a obsessão pelo poder, Mário Celso Petraglia negociou consigo mesmo: aliou-se aos torcedores sem recursos, prometendo ingresso de valor baixo. Negociou apoio com os organizados da “Fanáticos”, cujo desejo ostensivo e público sempre foi extingui-los – o que fará. Pediu desculpas a ex-presidentes que havia humilhado, despejando-os do clube. Insensível, usou como motivo central a queda do Atlético para a Segunda Divisão, sem a qual não ganharia a eleição. Frio, não reagiu às denúncias. Mexeu no bolso, pois teria investido quase 3 milhões de reais na campanha. E, enfim, fez tudo que, como o superior que imagina ser, não aceitaria fazer. Esses fatos romanceados transformariam Petraglia em uma versão revisada e atualizada do Doutor Fausto, de Goethe.

Petraglia, hoje, será eleito presidente do Atlético. Já era presidente da sociedade, que construirá a Arena da Baixada. Será fiscalizado por um conselho que já se sabe será subserviente, porque sua diretoria integra a sociedade que vai gerir o dinheiro, em um inexplicável e imoral conflito de interesses, ainda não combatido como deveria pelos sócios.

A oposição à Petraglia, embora derrotada, ainda que não tenha se dissociado da obra final de Malucelli (queda para a Segunda Divisão) foi portentosa. Revelou uma nova geração de atleticanos, que está à disposição do Atlético com a capacidade e o ideal de ser oposição e ao mesmo tempo manter o sentimento pelo clube de coração, sem precisar da desgraça do campo para alcançar o poder no futuro.

Petraglia volta em uma situação absolutamente diferente de 1995. Na primeira vez, estava bem cercado. Agora, tem direito de desconfiar da capacidade dos que lhe cercam. E mais: já não é mais um cidadão acima de qualquer suspeita, pois o processo político desgastante tornou-o vulnerável. A construção da Baixada e a volta à Primeira Divisão são obrigações imediatas, acessórias. A voz das arquibancadas será dirigida de acordo com os resultados de campo, a começar pelo Estadual e pela Copa do Brasil.

Hoje Petraglia volta a ser um deus.

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