Não existia nada pior do que a administração do futebol brasileiro. Casuísta para atender interesses de clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo, transigente para ser usada por políticos, a CBD depois sucedida pela CBF, sempre incentivou o regime de anarquia. Só ganhamos títulos mundiais porque a técnica brasileira é tão preciosa, que consegue superar os desmandos administrativos.
A partir do título na França em 1998, esse estado começou a mudar. Desvio de dinheiro, uso de clubes fantasmas para evasão de divisas, ilícitos tributários e fiscais, e um catálogo dos mais variados crimes foram denunciados pela investigação das CPIs. Se não foi possível afastar todos os culpados, pelo menos alterou a administração. Na CBF principalmente, que passou a impor no futebol brasileiro o princípio da legalidade. A forma de disputa do Brasileiro já está no terceiro ano, os rebaixados disputam a segunda divisão, Bahia e Vitória, dois times poderosos pelo aspecto político, vão jogar a terceira, a violência dos jogadores é punida com a pena máxima, a torcida é punida com a sanção da perda de mando imposta aos clubes, árbitros são fiscalizados, e se culpados são punidos, por dolo excluídos. São conseqüências desta nova ordem.
Por trás de tudo está um homem: o Desembargador Luís Zveiter. Continuando no comando na Justiça Desportiva depois de uma queda de braço com Ricardo Teixeira, interveio. Consciente de que errou quando o STJD favoreceu voluntariamente ao Botafogo e ao Fluminense, acabou com a algazarra. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva finalmente passou a decidir centrado no princípio da legalidade.
Um caso jurídico desportivo, às vezes, não pode ser julgado como um caso qualquer. É que não se julga apenas o fato em si, mas o fato dentro de uma espiral de conseqüências e circunstâncias. A simulação de resultados, analisando sob o aspecto unicamente jurídico, implicaria na anulação do campeonato, que por ser por pontos corridos, os jogos se interligam. O regulamento de um campeonato é um contrato em que os clubes aderem. Viciado na origem, é viciado no seu todo.
O caso sendo de natureza esportiva reclama bom senso em razão de que a intransigência com a lei repercutiria no segmento esportivo mais importante do povo brasileiro.
O recuo de alguns clubes principalmente o Flamengo de ir ?até as últimas conseqüências?, só foi em razão da intervenção do desembargador Zveiter. Do contrário, frouxo e político como sempre foi o nosso futebol, já estaria na baderna.