Atualizando o pensamento do filósofo Rousseau, de que “o homem nasce bom, a sociedade que o corrompe”, pode-se pregar que, hoje, não há idealismo puro nos tempos de glória. É que depois da conquista, o ser humano torna-se capaz de usá-lo como um artifício para mascarar intenções, que se afastam da natureza do ideal. E aí, ao invés de continuar executando-o com o propósito de alcançar o bem, interpreta-o.
Há tempo, adotou-se como regra no futebol, que o grande dirigente tinha que ser malandro. A ética deformou-se tanto, que o malandro passou a ser um ingênuo. Daí, tornou-se absoluta ao ponto de conceituar o “dirigente dos sonhos” – aquele homem milionário, desprezando-se a origem da fortuna, ou de origem conhecida, mas escondidas com artifícios aprendidos pelos ensinamentos das escolas berlusconianas.
Mas a sociedade por mais perversa que seja, torna-se frágil diante do idealismo sem disfarce, gerado pelos atributos pessoais que o ser humano ganha do berço, e na execução da vida, torna-os invulneráveis.
O maior presidente de clube do futebol brasileiro é Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro. Pessoa comum, sem nenhum artifício, devolveu ao Santos a nobreza ganhada nos tempos de Pelé e quase perdida por uma administração perdulária. Sem prometer, levou o “Peixe” ao título da Copa do Brasil, do Paulista e da Libertadores. Sem prometer, pode ser campeão do mundo. Enfrentou a sedução irresistível dos milhões de euros do Barcelona e do Real Madrid e manteve o genial Neymar. Já o Vasco flutua com Roberto Dinamite na sua presidência. Ganha títulos, moderniza São Januário e paga dívidas.
Mas não precisamos ir a Santos para buscar uma referência de que o dirigente pode ser grande com seus atributos naturais. O Coritiba irá aclamar hoje, para a sua presidência, Vilson Ribeiro de Andrade. Quando o seu clube iria ser varrido do cenário por um bom tempo, ganhou a proteção do seu idealismo. Para recuperar o clube, ao lado de Pedroso, não precisou ter os tentáculos que o “dirigente dos sonhos” usa para alcançar objetivos.
Por ter recuperado o Coritiba, e se transformado em ídolo da torcida, Vilson poderia assumir prometendo os títulos estadual, brasileiro, da Copa do Brasil, da Libertadores e do Mundial. E prometer a construção de uma catedral.
Mas há momentos em que o idealismo é tão puro, que é incapaz de usar o passado para benefícios presentes. É quando a sociedade se torna incapaz de corromper.