Só se tem a exata noção de uma guerra, voltando e vendo no dia seguinte o campo de batalha.
Vi fotos e imagens do Estádio Antônio Couto Pereira. A revolta de qualquer torcedor, independente do time de coração, é inevitável. Destruíram-se valores, pois os danos não foram apenas de natureza pessoal e patrimonial. Tão grave, foi o dano que ofendeu o espírito da sociedade que tem o Coritiba como um valor inestimável. Penso que se foi no Couto Pereira, poderá ser na Arena da Baixada ou na Vila Capanema.
O que aconteceu nada mais foi do que o reflexo da impunidade. E há exemplos recentes. Desde que o menino Viana foi morto por ocasião do Atletiba, não se fez absolutamente nada. Se não fosse a intransigência da Justiça, o matador estaria livre.
A Segurança Pública limitou-se a fazer uma reunião para que os integrantes das organizadas, anunciassem um regime de paz. Parecendo ingênua, mas no fundo despreparada, a autoridade estatal anunciou um disk-denúncia. Mas a alerta principal, e que foi desprezada, foi a esvaziada caminhada pela paz. Apenas 90 torcedores participaram. Ninguém percebeu.
A culpa não se limita ao poder estatal, principalmente em Curitiba, em que a Polícia Militar é desatualizada em recursos materiais e de salários. Aqueles pobres coitados que enfrentaram os torcedores do Couto Pereira, ganham um salário de fome.
A culpa historicamente, também, é dos clubes e da imprensa.
Durante toda a última administração, o Paraná pagou 4 mil reais por mês à torcida organizada, a título de “ajuda de custo”. No Atlético, só agora foi superado o casuísmo, porque antes dependia de circunstância. Mas nada pior do que a cumplicidade da diretoria do Coritiba, que direta ou indiretamente transigia a favor das organizadas. Já escrevi que a causa dos fatos de domingo teve origem na atração em massa do torcedor de 5 reais. Não se trata discriminar pobres de ricos, mas discriminar pessoas de má índole de pessoas de bem.
Não tenho notícia neste momento que escrevo a coluna, e já são 17h, que a diretoria do Coritiba tenha adotado procedimentos judiciais contra aqueles que praticaram crimes dentro do seu patrimônio. No mínimo deveria anunciar extinção das organizadas face ao clube.
E não se pode ignorar a imprensa esportiva de Curitiba. Sabia que na hipótese de rebaixamento do Coritiba, iria ocorrer o que ocorreu, mas se omitiu. Se tornasse público obrigaria providências do Coritiba e da Polícia Militar. O papel da imprensa não é de preservar, mas de denunciar e noticiar.
Ouvi rádios e programa de televisão. Sempre o mesmo argumento: não se trata da torcida de um time (no caso, o Coritiba, mas já foi o caso do Atlético e do Paraná).
Mas qual é o conceito de minoria no caso de torcida em um campo de futebol? É exatamente aí que surge o grande equívoco, que demonstra a ignorância e a covardia para enfrentamento do problema. A maioria não está na quantidade de pessoas de bem, porque essas por serem de bem, se tornam vítimas indefesas; mas, está no poder dado aos bandidos de organizadas, através de ingressos gratuitos, como o são os de 5 reais, dinheiro vivo, o esquecimento no dia seguinte, a impunidade, e da omissão de quem deveria denunciar e não o faz.
Lembro de Martin Luther King: dias piores virão.
Estava certo. Logo depois foi assassinado.