Desabafo

Sem uma união, o Paraná vai acabar até o final do ano, disse emocionado e chorando Marcus Vinícius, gerente de futebol do clube. Volte-se no tempo: Marcus Vinícius era jogador de meio campo do Atlético. Tendo força para marcar, visão para cobrir e talento para passar, era um dos melhores do Brasil. Bem por isso, em 2001, foi atraído pelo Cruzeiro e, cedido por um bom dinheiro e um atacante de contrapeso, que atendia pelo nome de Alex Mineiro.
De atributos pessoais quase raros no atual futebol, tornou-se um executivo surpreendente: não faz trapaças. Por não esconder sentimentos, não separa o profissionalismo do ideal no exercício da profissão.

Toda a pessoa com ideal, por mais profissional que seja, desabafa com verdades. Ao afirmar que o Paraná vai acabar até o final do ano se não houver união, Marcus Vinícius apenas falou a verdade, que os tricolores não querem enfrentar. Não estaria no seu conceito de seriedade, afirmar ao contrário.

Marcus foi até otimista ao estender o prazo até o final do ano. O Paraná, tecnicamente, já está insolvente como instituição. Não resistiria a um processo de insolvência, pois o valor do seu patrimônio líquido disponível é inferior ao valor de suas dívidas. Nem a união como condição irá dar uma solução ao clube. União sem uma liderança capaz, exercendo uma espécie de ditadura, aumentará o problema. O Atlético só é o que é, porque Petraglia, Adur e Fornea ditaram os princípios de recuperação. Por serem capazes, decidiam o que tinha que ser feito. Às vezes, o coronelismo petralhista é que protege o Furacão. A confusão de mando provocada pela falta de liderança impositiva torna o clube vulnerável aos erros e à corrupção: todos se acham no direito de errar e ganhar por fora. Se é apenas um e capaz, o clube acaba tendo benefício.

Há só um caminho para o Paraná: parar de sofrer com a humilhação que os seus dirigentes lhe provocam. É traumático, mas é o único: se afastar, em regime de licença do futebol profissional por um período de três anos. Não há outra forma de romper a cadeia que aumenta as dívidas, pois o futebol é um segmento que exige gastos além do ganho. Sendo inevitável a pressão da torcida, o dirigente se obriga a ser irresponsável , se não tiver respaldo pessoal e popular. Mantendo o futebol profissional, o Paraná vai aumentar o seu passivo. Mas nenhum caminho poderá ser tomado sem ter um líder do nível de Tissot, Piana, Trombini e Buchmann, que têm condições de ditar regras. Se houvesse o mínimo de capacidade e sensibilidade entre os tricolores, o desabafo de Marcus Vinícius iria ser o ponto de partida para a salvação do clube.

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