A última vez que Washington falou comigo foi para dizer o que eu achava que não era justo: “Doutor, muito obrigado pelo que o senhor fez por mim”. Respondi que ele estava invertendo a noção de justiça: se na nossa relação alguém fez mais pelo outro, foi ele por mim. Em 1983, era ainda, um advogado sem prumo, quando ele e Assis, sem terem um motivo de fundo, me deram o empurrão que eu precisava na vida. Se já me tornavam feliz com gols e títulos pelo Atlético que a minha geração não conseguia ter, com esse ato de confiança me tornaram importante.

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De propósito, evitei ver Washington nos últimos tempos. Não queria ter com o corpo pétreo e inútil, embora, ainda, com recursos para aprisionar dentro dele a alma imensa e enorme. Queria preservar a imagem do negro bonito, alto e esguio, que fazia gols para um torcedor carente de ídolos e títulos, e que sempre após um contrato renovado com o Fluminense, cantava para o advogado um samba-enredo em um bar de Copacabana. Cante aquele que eu mais gostava, Baiano, “De bar em bar, Didi um poeta”: “Hoje eu vou tomar um porre! Não me socorre, que eu tô feliz! Nessa eu vou de bar em bar, beber a vida, que eu sempre quis. E no bar da ilusão eu chego, é pura a paixão que eu bebo, amor, me deseja, me dá um chamego, me beija e faz um cafuné”

Washington era tão puro que se tornava ingênuo, porque achava que tinha o dever de viver e ser bom, nem que fosse em sonho. Parecia ter saído de um verso de Fernando Pessoa: “Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso”.

Essa coluna é uma homenagem a Chiquito, ex-jogador do Colorado, que foi o companheiro fiel de Washington até os seus últimos dias.

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