Perder uma Copa do Mundo,embora não seja uma tragédia usa-se da sua ardilosa mecânica para se afastar da culpa: quem diretamente foi responsável pela derrota imagina-se inocente. Todos os que foram a Alemanha, do goleiro ao ponta esquerda, do técnico ao roupeiro, saíram de lá como vítimas. Nós mesmos, jornalistas ou torcedores, quando se trata de futebol preferimos ver o óbvio, soprepondo-o à verdade real.
Por isso, a motivação para que sejam oferecidas as mais diversas versões para fracasso na Alemanha não passou de temas comuns: desunião, simulação de vontade, dissimulação de idealismo, abstração de patriotismo, vaidade, erros táticos, escalação por vínculos comerciais, tratamento paterno com o adversário, e toda a espécie de ingrediente culposo.
É aí que se invalida o fundo motivador deste fracasso, que é a consciência definitiva de que a grandeza no futebol já não é exclusividade do Brasil. Não se pode isolar a derrota na Alemanha para alcançar esta verdade. É necessário analisar o conjunto dos fatos e um fato em especial: o jogador brasileiro não é tido como o melhor do mundo só porque nasceu no Brasil. A sua superioridade estava (não é risco usar o verbo no passado) no desenvolvimento das suas virtudes naturais nos clubes, que era finalizado como uma formação técnica e física excepcional.
Hoje não se desenvolve mais o jogador como antigamente. Ainda criança, o jogador tem a sua formação picotada, apressada e finalizada sem todos os fundamentos, para ser vendido. A sua estrutura final, em geral, perde a característica brasileira. E por melhor que seja, não passa de um jogador comum. A revelação de craques, que era em feita em fornada no passado, passou a ser ocasional. Craque, craque, só Robinho nos últimos quatro anos. Ganhar passou a ser eventual, e dependente de um comando passional, como foi o de Luiz Felipe em 2002, e com a ajuda da arbitragem, como na vitória sobre a Bélgica. Não é coincidência o fato de que a seleção brasileira enfraqueceu na mesma proporção do enfraquecimento dos nossos clubes.
Esta deformação técnica é agravada com um outro fato que concorre na mesma proporção: o futebol a ser jogado já não tem como causa imediata a vitória e sim a contra prestação comercial. A CBF ambienta a seleção nesta proposta de negócios, repercutindo diretamente no querer do jogador. A maioria já algum tempo não serve o Brasil pelo simples ideal, mas para expor-se ao mercado para cumprir contratos publicitários ou buscar outros de toda a espécie.