Conselhos esquecidos

Tenho lá meus defeitos como jornalista, não nego. Mas um não está entre eles: a arbitrariedade, que se origina de fazer de um fato um tema de rotina. O caráter sistemático, seja para análise positiva ou negativa do fato, torna-se parcial. Não é o direito de usar a plenitude da liberdade de expressão que nos faz, jornalistas, diferentes de qualquer outro cidadão.

Ao ponto, direto e sem me esconder em expressões indiretas ou esconder em entrelinhas ou sofismas. Por principio, sou obrigado a ter um grande respeito pelo jornalista Airton Cordeiro. Foi meu padrinho de casamento, e foi importante em um dado momento de minha carreira. De conduta pessoal irrepreensível, foi também (e deve continuar sendo) uma das referências jornalista: tem opinião, não se esconde dos temas e é independente.

Mas Airton começa a perder a razão em um fato em que já teve razão. É quando insiste, em falar e escrever, que a participação do municipio e do governo é com dinheiro público na construção da Baixada. Não diz mais do que a lei dispõe e que o Tribunal de Contas concluiu.

O equívoco do colega é insistir no óbvio e não o que, agora, se tornou essencial. A questão é: é legal aplicar-se dinheiro público em obra privada? Um fundamento básico de Direito Público aplicado no caso responde pela legalidade dessa aplicação, desde que o particular cumpra a prestação a que foi obrigado pelo contrato. Essa questão é clara, na medida em que o Atlético cedeu a Baixada para o municipio e o governo viabilizarem a Copa do Mundo, no Paraná, regida por uma lei especial que trata o Mundial como sendo de interesse público. Todos os processos do Ministério Público contra o municipio de São Paulo, questionando os incentivos dados ao Itaquerão, foram arquivados porque não tinham causa. Pela construção do Itaquerão, o Corinthians irá receber 220 milhões, por conta de uma obrigação de 220 milhões.

O próprio parecer do Tribunal de Contas é conclusivo sobre a legalidade da aplicação do dinheiro na Baixada. Contradição: o parecer serve para condenar, mas não serve para absolver. Neste caso, o problema do Atlético é o seu endividamento escancarado, mas esse é um problema dos atleticanos e deve ser resolvido dentro do clube. O que o Atlético não pode é ser constrangido como se fosse um pedinte, que nunca teve nada na vida. O que ninguém também pode negar é que o clube colocou no chão o estádio mais moderno do Brasil para atender o interesse do Estado e do Municipio.

Airton Cordeiro me ensinou certa vez que a crítica sistemática tem um momento em que se torna arbitrio.

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