Não sou um pregador de verdades, mas já vivi o suficiente para aprender que o fato criado com medo, vai se esfacelar na frente. Minha tecla que batia que o Atlético deveria ser tratado como grande já estava se quebrando, quando a coisa tomou outro rumo.
Foi confirmada a contratação de Kleberson. Nem os oito anos que se passaram, subtraíram a sua capacidade de jogo. Hoje, no mais tardar amanhã ou domingo, deve ser anunciado o nome do novo treinador: Paulo Roberto Falcão.
Não se pode fazer um juízo de valor sobre Falcão como técnico. Ele simplesmente não é técnico, ou especificamente não é o técnico que se encontra no mercado à espera de um convite que para ser aceito só depende da conveniência financeira. Para se analisar a vinda de Falcão, é preciso tratar muito mais das razões que o levaram a aceitar, do que os motivos que levaram o Atlético a convidá-lo.
Quem não o viu jogar, como oitenta por cento da “geração Arena”, conhece-o pela sua história. Foi generoso com a bola, uma fábula; será lenda. Resignado com a interrupção precoce da carreira de treinador, tornou-se comentarista.
Há momentos em que nossos ideais são tão sufocados pelos acontecimentos involuntários da vida que ficam sem fôlego. Então precisamos renunciar situações que nos são confortáveis. Correr riscos e correr riscos. O ideal de Falcão é voltar a ser treinador.
E não há nenhum outro clube no futebol brasileiro com a capacidade de bancar esse ideal. Bancar, aqui, não está limitado ao caráter financeiro. Ao contrário, os valores estão dentro de um padrão racional. Bancar no sentido ideológico, de procurar e alcançar objetivos.
Já ouvi censuras de que o risco de um fracasso vai cair todo sobre o Atlético. É, aí, que está o grande equívoco da analise da tacada do Atlético. Não corre risco nenhum. No máximo, risco de uma perda financeira, que correria com qualquer outro.
O risco é todo de Falcão. Deixa a posição de comentarista central da maior rede de televisão do Brasil, a Globo, deixa o espaço nobre que é o do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, rendimentos razoáveis, e o direito de exposição pública sem nenhum risco.
Se não for feliz, o Atlético irá procurar outro técnico para seguir a sua vida, enquanto Falcão vai ter que começar tudo de novo.