Cheiro de povo

“Numa terra radiosa, vive um povo triste”, escreveu Paulo Prado, abrindo o seu ensaio Retrato do Brasil. O sociólogo quis mostrar que a cobiça insaciável pelas riquezas, dos portugueses, iludindo índios e negros com a promessa de abundância, deu origem a um povo triste.

Lembrei-me dessa lição ao escolher a volta do Atlético à Baixada, contra o Criciúma, hoje à noite, como tema desse espaço. A monumental Baixada, com toda a sua sofisticação, recebeu até hoje produzida pela discriminação, e que por isso, tornou-se amuada como se fosse impedida de sorrir e de chorar. Radiosa, sempre esteve vazia em razão da discriminação social originário da imposição do principio de Mário Celso Petraglia, de que “futebol não é para pobre”. Há anos o Atlético foi proibido para a maioria dos atleticanos.

A maioria dos torcedores que irá ao jogo é constituída por atleticanos, que transformados em miseráveis pela politica usuária do valor do ingresso e da inscrição como sócio, nunca foram a Baixada – ou, se foram, o fizeram no sacrifício da fome. De certa forma, como em Retrato do Brasil, esse atleticano incorpora a imagem de Jeca Tatu, o personagem de Monteiro Lobato, que por ser mísero, é afastado dos seus valores, ficando à margem da própria vida.

Pelo menos por noventa minutos, o Atlético voltará a ser um time, também, de pobre. A Baixada, finalmente, terá a alegria e o lirismo que toda a sua majestosidade não consegue transmitir por ser usada para discriminar classes sociais, que é a de ter cheiro de povo, capaz, copiando Gilberto Freyre (Casa-Grande e Senzala), “de quebrar essa apaga e vil tristeza” da torcida atleticana.

A grama sintética é um artificio. Walter, que volta, por mais brilhante que seja, vai passar. Já os atleticanos pobres são eternos.

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