O caso Vagner, durante doze anos, foi para mim um aprendizado diário sobre a relação entre médico, clube e jogador; o erro médico e seu alcance para causa de reparação civil e condenação criminal. Até 2019, a família de Vagner vai receber a indenização oferecida pelo julgado, que concluiu pela culpa baseado no laudo do saudoso doutor Levy Miró Carneiro, perito do juiz que rompeu o corporativismo que paralisou o processo durante três anos. A sentença do Juiz dr. Valter Ressel, e o acórdão do desembargador Rosene Araão de Christo Pereira são peças jurídicas que se eternizam como ensinamento sobre erro médico.
O caso Vagner é o maior exemplo de toda a história do futebol brasileiro, do erro médico como trânsito para haver indenização. Ali houve o erro que é denominado clássico (ou crasso), decorrente de uma ação ou omissão viciada pela imprudência e negligência.
Lembrei do caso Vagner a propósito da morte do zagueiro Serginho, do São Caetano no campo do Morumbi. No caso, houve esse erro, que desde que oferecido como causa em procedimento judicial, vai levar o São Caetano, a diretoria e os seus médicos a responderem solidariamente. Talvez, seja mais fácil do que o caso de Vagner: neste foi preciso provar que houve erro no diagnóstico inicial. Então, o que era para ser tratado como lesão no crânio, foi tratado como lesão na coluna cervical.
A culpa no caso de Serginho está mais flagrante, porque o jogador teve diagnosticado em janeiro pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas a existência da deficiência que o levou a parada cardiorrespiratória. “Foi uma tragédia anunciada, sem dúvida”, afirmou o dr. Martino Martinelli Filho, do Incor. A diretoria e os médicos do São Caetano sabiam ou eram obrigados a saber de que havia o risco, por menor que fosse. Nem que Serginho expressamente tivesse assumido a responsabilidade por qualquer fato decorrente da deficiência, isenta quem o permitiu a continuar jogando nas condições em que estava. É que a nossa vontade não pode prevalecer contra o nosso valor mais importante, que é a vida.