Há muito se sabe que nada do que é humano pode nos ser estranho. Mas alguns humanos são estranhíssimos: os assassinos do menino Bruno são o exemplo. São assassinos de carteira assinada.
Não eram desempregados, tampouco eram remetidos à insegurança do emprego informal. Ao contrário, eram aparentemente treinados para uma função específica. E por isso, eram trabalhadores que tinham o que milhões de brasileiros não têm: os benefícios sociais ofertados pelo Estado.
O menino Bruno naquele dia estava com a emoção perdida. Talvez com saudades da namorada. E quem já teve saudades por amor, sabe como o coração trabalha. Bruno resolveu rebuscar alguma coisa no muro, quando o coração ficou em forma de um pincel.
Então ocorreu a tragédia.
E agora todos sabem como aconteceu. O menino Bruno foi imobilizado, torturado com sacos plásticos que impediam a sua respiração, trucidado por chaves de roda, e depois de receber dois tiros, foi jogado numa vala bem longe da cidade. A gravidade do fato não se limita à forma da execução de Bruno.
A gravidade está na natureza profissional dos assassinos, e em especial, nos fins sociais que a empresa que os empregava e treinava, se propõe. Eram funcionários de uma das maiores empresas do Brasil, de gerenciamento sofisticado pela eletrônica para atrair clientes.
O fim social dessa empresa é prestar serviços de segurança. Bem analisado, empresas dessa natureza estão na ilegalidade, pois lhe falta o poder de polícia.
Na prestação do seu trabalho, essas empresas obrigam-se a dar proteção muito mais emocional e psicológica, do que física.
Mas o que essa empresa fez: através de seus prepostos, ao evitar ação do menino, o levou para as suas dependências. E, aí, preparou-o para a morte. Mas não uma morte qualquer: a pior que um ser humano pode ser remetido, que é a precedida de tortura.
A tortura que precede a execução é pior que a própria morte. No momento que foi sufocado pelo plástico, Bruno deve ter querido se fortalecer com os valores que tinha aos 19 anos: o pai, a mãe, o irmão, os amigos, o coração à procura de consolo, e o próximo jogo dos coxas.
Tudo isso, é preciso lembrar, ocorreu no pátio da empresa.
Sabe-se que a sede de uma empresa de segurança, por sua natureza, recebe uma população média diária de mais de 100 pessoas. E era terça-feira, dia comum de trabalho. E não importava que era madrugada, pois uma empresa como essa, obriga-se a ficar 24 horas à disposição dos clientes. Era, portanto, um dia de casa cheia.
Onde estavam os dirigentes da empresa, e em especial, o dono?
Será que não sabiam do crime?
Da forma como as coisas ocorreram, os assassinos em si já não são mais importantes, porque o crime foi consumado e já foi confessado.
É preciso apurar a responsabilidade criminal dos dirigentes da empresa.