Carta de adolescente

Os meus editores sugerem que, pela natureza tradicional do editorial da Tribuna, escreva mais sobre os nossos clubes. Há sentido, não só pelo motivo em si, mas porque a Copa do Mundo, à exceção dos jogos do Brasil por serem estimulados pelo falso nacionalismo, é um tédio. Não há um novo craque, não há uma nova ordem tática, tudo é previsível nesse Mundial da Rússia.

Sem assunto interno, pergunto: escrever sobre o que? Sobre a carta de Petraglia justificando a sua saída e a demissão de Diniz, sugerem.

Então, li a carta.

Foi uma carta escrita por uma pessoa perturbada, que parece ter perdido consciência das coisas. Ao imprimir o adjetivo de medrosos aos atleticanos, assumiu o papel de adolescente apaixonado que perdeu a namorada. Culpando os outros pela perda, quer afastar a própria culpa por falta de encantos.

Diniz poderia até ser o técnico. As suas fantasias táticas poderão até ganhar forma. Mas assumiu a sua própria irresponsabilidade ao querer fazer o papel do patrão com Jonathan, Wanderson, Zé Ivaldo, Bergson, Bill, Camacho, Lucho, Guilherme e Ribamar, e os jovens que ainda não conseguiram nascer.

A carta carrega uma grande mentira. Petraglia não demitiu Fernando Diniz por pressão da torcida, conselheiros e diretoria. Ninguém mais do que ele foi dominado pelo medo do rebaixamento. Oportunista, com a manifestação das redes sociais, dramatizou a saída do ex-treinador, ao qual havia jurado amor eterno, “até à segunda divisão”. Por isso, escreveu a carta para justificar a sua demissão à imprensa paulista e ao agente Giuliano Bertolucci, que indicou o treinador, que afirma ser seu amigo, e que já lhe prestou alguns favores.

À propósito, agora que os conselheiros estão festejando a saída de Diniz, quando é que irão exigir de Petraglia a solução da dívida da Baixada? Escrevi que Diniz era o menor dos problemas.

Esses conselheiros ajudarão Petraglia a fazer a cova do Atlético?

A verdade é que o Atlético, também, virou um tédio.

O seu noticiário é de péssima qualidade, pois vive em razão de uma pessoa que não consegue ir além de girar em torno de si mesmo.

Maracanã

Em razão da vitória do Uruguai em 1950, em seu “Fechado por motivo de Futebol”, o Eduardo Galeano, o saudoso e notável escritor uruguaio escreveu sobre o Maracanazo:

“Os moribundos atrasaram suas mortes e os bebês apressaram seus nascimentos. Rio de Janeiro, 16 de julho de 1950, estádio do Maracanã. Na noite anterior, ninguém conseguia dormir. Na manhã seguinte, ninguém queria despertar”.

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