Na fonte inesgotável de virtudes do imortal Millôr Fernandes estava a ironia. O entendimento das suas frases, às vezes, exigia alguma dose de reflexão. Certa vez, ao imprimir “o otimista não sabe o que o espera”, provocou tantas dúvidas em seus leitores que ele se obrigou a escancarar o seu lado irônico.
Toda vez que o leitor não entendia o que escrevia, na coluna seguinte explicava o seu pensamento. Lembrei dessa passagem de Millôr em razão da provocação de leitores, que não entenderam o final de “Ave, Petraglia!” que dei à coluna de ontem “Ronaldinho, a bola e as polacas”.
Para quem não entendeu, vou explicar. O caso de Ronaldinho revela a falta de racionalidade na administração do Coritiba. Tem início e já comprometimento na causa: em nenhum momento de todo o processo até aqui, o clube afirmou querer Ronaldinho como jogador. A pretensão aparente e de fundo, porque nenhum dirigente a negou, é usar Ronaldinho para vender camisa, atrair sócios e aumentar o número de pagantes em seus jogos.
Essa causa imediata leva à conclusão de que a diretoria trata como irrelevante o fato de Ronaldinho nunca mais ter jogado depois que saiu do México.
Do Barcelona para o Milan, do Milan para o Flamengo, do Flamengo para o Atlético Mineiro, do Galo para o Querétaro e, deste, para o Fluminense, onde por falta de condições físicas que repercutiram na sua qualidade de jogar, acabou rescindindo contrato. Uma contratação como essa coloca- se à beira da irresponsabilidade.
Se é certa a premissa de que a diretoria está trazendo a celebridade para vender camisas e títulos de sócio, é possível afirmar que a sua escalação será obrigatória, fato capaz de comprometer a própria liberdade de Carpegiani.
Quando escrevi “Ave (em latim “salve” na saudação a César, em Roma), Petraglia”, foi para exaltar que no comando do Atlético não se pratica esses desatinos. No leitor, deve estar lembrança de Adriano, o Imperador. Só que Adriano veio em um contrato de risco. O risco todo era dele. A dívida para a construção inevitável da Baixada não deve ser considerada dentro do tema. Qualquer um que fosse o presidente, teria que fazer a obra. A questão do seu valor era interna. Realizou-se um patrimônio inigualável que só não foi quitada, ainda, por oposição politica e pessoal fora do Atlético.