Se a morte é inevitável, bem que algumas pessoas, por serem especiais, poderiam escolher o dia para ir embora. Se isso fosse possível, o doutor Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro não escolheria essa época ambientada por essa estranha realidade imposta pelo invisível COVID-19.
Se pudesse, o doutor Motta escolheria o dia em que o Athletico estivesse jogando, que toda a família estivesse reunida e que todos os seus amigos estivessem à sua disposição para ir lhe dizer adeus.
O doutor Motta era especial. Fazia parte da minha paisagem, quando na hora do almoço, ele saindo do 9º Tabelião e eu do escritório cruzávamos nossos caminhos, na Marechal Deodoro. Depois de uma conversa sobre o Athletico, cada um tomava o rumo da sua casa.
Quem o conhecia pela primeira vez, o abordava com certa resistência: o nome, o sobrenome e a aparência de irretocável beleza, davam a impressão de ser um nobre distante. Mas, o seu primeiro sorriso já projetava a sua grande qualidade humana, composta pelos sentimentos de humildade, compreensão, transigência e renúncia.
Pelo seu espirito de liderança natural e de ideal, foi presidente do Athletico Paranaense, da Federação Paranaense de Futebol e do Clube Curitibano. Por ser intransigente com o princípio da legalidade, foi uma pessoa pública invulnerável. Quero que essa coluna sirva para agradecê-lo pelas lições, inclusive, de vida, e que sirva como um pequeno conforto e solidariedade à sua família.
Há esperança?
Sem ignorar a importância de cada título, do Coritiba (1985) e Athletico (2001), mas por entender que nas disputas com critérios eliminatórios, há a intervenção do acaso. Por isso, é razoável a dúvida: Athletico e Coritiba serão um dia campeões do Brasil pelo critério de pontos corridos?
A questão é complexa, não há dúvida.
Qualquer resposta tem que partir de um fato que é incontroverso: um campeonato com o atual sistema, em qualquer lugar do mundo, elege o melhor como campeão. E, essa qualidade de melhor, tem como premissa principal o poder financeiro de contratar os melhores jogadores e o melhor comando. Atendendo-a e colocada dentro de uma organização bem gerenciada, a conquista só pode ser afastada pelo imponderável. O exemplo prático dessa situação é o Flamengo atual.
Em razão da descomunal diferença de poder financeiro, não limite da realidade da Athletico e Coritiba não autoriza ir além de objetivos racionais, que é a Libertadores da América. Para passar dele e chegar ao titulo é preciso a ajuda do imprevisível.
Por ser assim é que a lembrança de 2004 ainda maltrata os atleticanos. Precisando ganhar nove de 12 dos pontos, que iria jogar contra o praticamente rebaixado Grêmio até então, em Erechim, São Caetano, em casa, Vasco, no Rio, e Botafogo na Baixada, o Furacão, por falta de comando dentro e fora do campo, perdeu o bi.
E três pontos já estavam quase ganhos do Grêmio, quando a covardia de todos puxou o time para trás e permitiu aos gaúchos empatarem um jogo que perdiam por 3×0.
