Quando trata da angústia do ser humano no seu clássico “Crime e Castigo”, o escritor russo Fiodor Dostoievski conclui: “Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente”. Assis era assim: o seu sorriso curto, quase tímido, fazia emergir todas as virtudes que o tornavam um ser humano especial. Era incapaz de praticar qualquer ato que pudesse provocar mágoa. Seus princípios eram de uma pessoa comum. Só que o tornavam especial, porque os respeitava. Como era querido o Assis.
Chegou ao Atlético em 1982, com 28 anos. Batendo na bola sem fazer ruído, era a alma do aquele Furacão inesquecível que voltou a ser campeão. Certa vez, pensei em perguntar-lhe: por que demorou tanto aparecer jogando o que joga? Então, me lembrei de Fernando Pessoa: “As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora”. E é verdade: se procurarmos muito pelas razões de fatos passados, perdemos o sentido daquilo que precisamos ainda viver.
É bíblico: há tempo para tudo. O retardo no tempo da consagração de Assis foi um propósito divino. Tudo em sua vida de mais importante aconteceu a partir do Atlético: a explosão como craque e ídolo, o simbolismo indestrutível do “Casal 20”, que criou com Washington e, em especial, conhecer e ter o amor de Anne, que lhe deu os seus maiores valores, os filhos Veridiana, Lorena e Gustavo. Como jogador? Não há nada mais forte que a história. Em qualquer Atlético de todos os tempos, Assis tem um lugar. No maior Fluminense da história, ele é posto ao lado de Rivelino.
Testemunhei os três gols que ele considerava os mais importantes: Morumbi, 1983 quartas de final do Brasileiro: São Paulo 0x1 Atlético. Maracanã, final carioca, 11 de dezembro de 1983. O Fla-Flu com 87 mil pessoas já estava nos descontos e sem gol. A torcida do Mengo de Júnior gritava “é campeão”. Então, Delei, que via tudo, viu Assis correndo nas costas de Júnior. Assis, na área, bateu no lado direito de Raul Plasmann. Fluminense, campeão!
Em 1984, outra vez Maracanã, outra vez Fla-Flu. Outra vez Assis. Flu, bicampeão! O narrador Jorge Cury, da Rádio Globo, flamenguista doente, o chamou de “Carrasco”. E a torcida tricolor saiu cantando: “Recordar é viver, Assis acabou com vocês”. Por que falar da sua morte se há uma vida tão bela para ser recordada?