Aparências

Em Brasília, Brasil, 4; Camarões, 1.

Pródigo em escrever uma página a mais na história, não há mais criador de lenda no futebol que o brasileiro. Bem por isso, contam-se em forma de lenda, as histórias das conquistas das cinco Copas como produto de um jogador só.

Se o Brasil ganhar essa Copa do Mundo, o que é mais possível por jogar em casa, do que mais provável pelo futebol que não joga, Neymar vai acabar em lenda. Só que não tem Garrincha, como tinha Pelé (1958); não tem Zito e Didi, como tinha Garrincha (1962); não tem Gerson e Tostão, como tinha Pelé (1970); não tem Bebeto e Branco, como tinha Romário (1994) e nem Rivaldo e Ronaldinho, como tinha Ronaldo (2002).

O Brasil ganhou de Camarões por um único motivo: Neymar. Só que hoje a dependência de um único jogador reclama uma conclusão diferente do passado. Esse jogador ao dar soluções isoladas prova não só a sua capacidade individual, mas, em especial, a falta de ajuda, seja de um companheiro de qualidade, seja de esquema tático.

O gesto de desafogo de Felipão, projetando a língua para fora depois de um suspiro profundo, no gol impedido de Fred (o terceiro) foi a autenticação de que o Brasil para ganhar do já eliminado Camarões, dependeu de Neymar, que até agora é corpo e alma. O gol de Fernadinho (o quarto) fez o placar de goleada e criou a aparência de que o Brasil evoluiu.

As aparências, às vezes, enganam.

Despedida

Os espanhóis estão indo embora e a única boa lembrança que deixam é o dinheiro da locação do CT do Caju. Isso se já pagaram. De resto, só decepção. Não foi a eliminação em si. Com outros campeões, como o Brasil em 1966 e 1974, também já ocorrera. Foi deixando uma terrível dúvida: o futebol de toque que reabilitara a arte desaparecida com o Brasil em 1982 acabou?

O fracasso da Espanha pode incentivar a volta do futebol rústico produzido tendo como referência a marcação pela força, a velocidade e o contra ataque.

Talvez tenha deixado um resto de esperança ontem na vitória por 3×0 sobre a Austrália, na Baixada. Os passes do extraordinário Iniesta e o gol de David Villa são um restinho de boas lembranças dessa geração que acabou em Curitiba.

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