Anjos e demônios

Dois meninos, os dois com quinze anos, que ainda esperam ansiosos pelo dia da criança, foram transformados em causa de uma discussão entre Coritiba e Atlético: a idéia que se criou a partir da posição do Coritiba, é que o Atlético os ?roubou?.

Não entro no mérito da ação que deslocou os meninos para o CT do Caju. E nem existe mérito porque não existe lei que impeça, porque até os dezesseis anos, quando só então pode se profissionalizar, o jovem pode manifestar a sua vontade, independente de qualquer procedimento.

Até pouco tempo existia uma relação de respeito mútuo entre os clubes. Era o chamado ?código de ética?, que no futebol brasileiro há tempo foi rasgado. É que a maioria dos dirigentes se tornou dona do clube, e por isso não vê mais limites principalmente éticos para instrumentar seus interesses; e porque alguns clubes, em razão de criar uma espécie de modismo entre crianças, exercem influência irresistível na vontade do jovem. Entre esses clubes está o Atlético, em razão do efeito Arena.

Afirmar que basta a manifestação de vontade de uma criança para mudar de clube, é ir contra a verdade. É querer ser anjo em um ambiente em fogo. É regra geral, que o seu querer, quase sempre, é estimulado por alguém, não necessariamente o dirigente rival. Por isso esse mercado virou uma selva, que não tinha lei, e agora não tem respeito. Como foram para o Atlético, por vontade espontânea, esses dois meninos amanhã podem ter essa mesma vontade ?negociada? com Corinthians ou São Paulo.

A vontade não é a interior, que provoca o sentimento de querer jogar em um clube; mas, é a vontade despertada por algum interesse, às vezes, até manipulada por pessoas próximas, que vêm num sobrinho, num filho ou no filho do amigo, a oportunidade do ganho inesperado.

Lembrança

Lembro de 30 anos atrás. Por um esquecimento, o Atlético não pediu a preferência de renovação do contrato de Katinha, ponta direita que era a sua maior revelação da época. O jogador se ofereceu com passe livre ao Coritiba. Mas Evangelino Costa Neves não aceitou: em respeito ao ?código de ética? alertou o então presidente atleticano Anibal Khoury, que mandou resgatar Katinha.

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