Alma negra

Se Dionísio fosse branco não teria a graça que teve. Então, eis o seu grande segredo: ser negro de corpo e alma.

A cor negra combinava com o corpo atarracado, de feições poderosas, que se derretiam em sorrisos. Nunca permitiu ser enquadrado na expressão “negro de alma branca” (criada pelos movimentos antirracistas), porque nunca fugia de si mesmo. Pela visão do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em sua obra “Pensadores que Inventaram o Brasil”, comentando Gilberto Freyre (Casa-grande & Senzala) concluiria que Dionísio não nasceu com a “vocação de ser escravo”. Ao contrário, comento eu, ao invés de se auto excluir e ser submisso, Djonga exibia a cor negra para identificar que na alma negra é possível extrair o caráter irrepreensível, embalado pela sinceridade e pela lealdade, virtudes tão raras no mundo em que vivemos.

Ser assim era um imperativo de vida do qual não transigia. E assim, praticava diariamente um exercício de cidadania. Nada em Dionísio era falso, tudo era sincero. O seu apelido, que dava nome ao seu programa na Banda B, era o resumo de todos os seus atributos: Sangue bom.

Misturando seriedade, princípios tirados de vestiário e ironia, criou uma cultura própria, só dele, para falar da vida e as suas razões. Com Sueli, professora que ensinou português para gerações de jovens em Curitiba, criou, educou e formou os filhos Cristiano, Bibiana e Márcio Eduardo. Deixou como herança essa autoestima, que os tornou livres e independentes de qualquer submissão à sociedade que discrimina.

Sensível, tinha a rara capacidade de refletir e sentir ao mesmo tempo. Para ele, a razão nunca foi mais importante do que o sentimento. Bem por isso, que uma das suas marcas, que eram as reações emocionais em que os movimentos de braços guardavam harmonia com a voz grave, alta e quase estridente, nada mais eram do que uma forma perfeita de ser terno e de ser cândido. É que depois de tudo, vinha o sorriso.

Dionísio poderia ser a Maria, de “Maria Carnaval e Cinzas”, de Luiz Carlos Paraná: morreu em pleno carnaval. Mas diferente dessa Maria cantada por Roberto Carlos que deixou só cinza e fantasia, Dionisio deixou uma bela história, que bem contada vai se confundir com uma lenda.

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