Afago

Na vida, o afago bem dado sempre consola. No futebol, em que a vitória é a única verdade, nem sempre. Às vezes, por maior que seja, o afago não passa de um disfarce que se torna uma agressão quando a razão devolve a realidade.

O Atlético ganhou o “maior Atletiba da história” por 1 x 0 (gol de Guerrón, no segundo tempo) imprimiu uma marca inapagável aos Coxas, eliminou-os da Libertadores da América, mas o resultado final no Brasileiro não pode ser disfarçado: não há afago que consiga diminuir a dor do rebaixamento para a Segunda Divisão.

Já fui do tempo de me consolar com uma vitória em Atletiba. Era um tempo da inocência, da ilusão de que uma vitória desta natureza tinha o significado de título. Mas o Atlético cresceu tanto a partir da Arena da Baixada (1999), e o Coritiba ficou tão defasado – duas vezes na Segunda Divisão -que vitórias de marca deveriam se transformar em obrigação e não como calmante para descansar o sentimento da perda maior.

O torcedor atleticano, em especial essa nova geração, que não se iluda. Desde 2002, o Atlético perdeu a alma, tornou-se uma empresa mercantilista, viveu de rompantes messiânicos, enganou seu torcedor. Tanto é verdade, que a exceção de 2004 e 2010 teve sempre como objetivo imediato não ser rebaixado. Qualquer outra consequência era lucro. Mas não há estrutura e dinheiro que suportem a incompetência, que vem gerenciando o seu futebol há muito anos, mas que ganhou plena extensão em todo 2011.

Não se pode ignorar a vitória de ontem como um fato histórico. Em especial, porque foi produzida por uma torcida que, já com dor pela goleada do Cruzeiro, colocou a alma em campo e ajudou Guerrón a cabecear a bola para o gol de Vanderlei. O Atlético está na Segunda Divisão. Em 2013, estará de volta à Primeira.

Na vida, é como Fernando Pessoa escreve em poesia: “Passou a diligência pela estrada, e foi-se; E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia. Assim é a ação humana pelo mundo fora. Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos; E o sol é sempre pontual todos os dias.”

E o Coritiba? Só recebeu consolos, em especial da imprensa da televisão. Na pratica foi um fracasso. Teve a oportunidade de ganhar a vaga para a Libertadores duas vezes, sem depender de ninguém. Perdeu a duas, ficando com uma Sul-Americana, para a qual até o Bahia, que ontem lutava para não cair, irá.

Esse Coritiba foi quase.

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