Um dos males da cultura do futebol brasileiro é não recuperar a memória. E se recuperar, não preservá-la. Uma dos temas atuais mais controvertidos do futebol, que já chega a ser cansativo, são os esquemas táticos criados pelos que os teóricos chamam de revolucionários.
Se o futebol brasileiro tivesse a mínima preocupação em recuperar a memória, iria encontrar bem lá atrás, nos anos setenta, um ex-jogador do Fluminense, que é mais cultuado pela história do futebol argentino do que o brasileiro: Elba de Pádua Lima, o Tim.
Por aqui não apareceu nada igual. Genial, as variações táticas do time que comandava, eram tão intensas e tão surpreendentes de um jogo para o outro, ou do primeiro para o segundo tempo de um mesmo jogo, que projetavam o futebol do futuro.
Ao invés de chamá-lo de gênio, a grande imprensa tratou-o apenas como “estrategista”, que era o bastante para torná-lo excepcional no futebol. Tudo isso que se debate hoje, Tim já pensava e executava lá atrás.
Por ser diferente, usava de uma didática baseada em metáforas, para explicar as suas ideias para nós mortais em futebol. E, aí, certa vez para explicar a razão de que não poderia escalar o Coritiba de uma determinada forma, afirmou: ”Ficará igual a um cobertor curto: cobre os pés e descobre a cabeça. Para arrumar o meio e o ataque desta forma, abrirei a defesa. E perderei o jogo”.
Lembrei desta metáfora do “Cobertor Curto” criada pela literatura de Tim, a propósito das primeiras críticas (e já afirmo, injustas) a Tiago Nunes, treinador do Atlético. O fenômeno da televisão a cabo, em especial, do PPV, dá a chance do cronista se atualizar em qualquer parte do mundo. De volta, encontro o Atlético ainda mais caído no Brasileiro. E as primeiras críticas ao treinador interino Tiago Nunes. O futebol é incompressível: quando viajei, com Fernando Diniz, o Atlético atacava demais e se defendia de menos. E agora, com Tiago Nunes, defende-se demais, e ataca de menos.
Embora sejam situações diferentes, na essência são iguais. O problema do Furacão com Fernando Diniz é o mesmo do Furacão de Tiago Nunes: a falta de bons jogadores. É impossível um treinador conseguir que um time sem qualidade, como o do Atlético, encontre o ponto de equilíbrio.
Se Tiago avançar um pouco o meio para juntar-se aos atacantes, vai ocorrer o mesmo desastre com Diniz: continuará com dificuldades para fazer gols e a defesa vai ficar, outra vez, um buraco.
Tiago será a próxima vítima da tutela incompetente à que se submete o futebol rubro-negro: tratado como negócio empresarial, despreza-se o negócio esportivo (vitórias e títulos), e é mandado arrumar-se com um time que o tempo já provou que é incapaz de competir, nem mesmo para escapar da Segundona. Quando o conceito de reforço é ditado por Marcelo Cirino e Bruno Nazário, a Segundona começa a ser o limite.
O recurso de Tiago tem uma razão moral. Jogar na defesa, evita humilhação e aumenta o risco de ganhar o jogo. Ganhar jogo nesse Furacão montado por Petraglia e Diniz passou a ser um risco, vejam só.