A geração dos nossos filhos cresceu ouvindo falar que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo. Já é adulta e não consegue vê-lo. O limite, que já entra como lembrança remota, foi de exceções, como Romário em 1994 (Estados Unidos) e Ronaldo em 2002 (Japão). Era, ainda, tenra, saída do berço, quando a geração de Zico, Sócrates e Falcão caiu em desgraça em 1982 (Espanha), por carregar o pecado de ser fiel a natureza do futebol como arte.
Foi enganada pela marchinha cantada pelos avôs do “com brasileiro, não há quem possa”, com a locução passional de caráter populista da televisão, com a modernização tática pela adoção dos músculos e da força, dos quais originaram os xerifões atrás e os matadores na frente. Já está convencida de que é uma ordem que servia e serve para esconder o objetivo principal: a corrupção do sistema, a partir do comando central, mas que são aproveitados pela maioria dos dirigentes dos clubes. Esses deixaram de ser grandes em campo, esvaziando-se o núcleo central que era baseado em grandes times. Do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, em especial.
Não há nenhum segredo a ser investigado para explicar a goleada do Barcelona sobre o Santos, (4×0), ontem na final do Mundial de Clubes, no Japão. A imobilização tática, suposto projeto errado de marcação, eventual culpa do treinador Muricy, o isolamento de Neymar no ataque, a passividade de Ganso no meio, tudo são questões meramente acadêmicas.
A goleada do Barcelona não se encerra com análise tática, com o destaque da individualidade de Messi, Xavi, Inesta e Fabregas, ou qualquer circunstância objetiva que ocorreu durante o jogo. É resultado da nova ordem no futebol que os espanhóis adotaram em 2003, a partir das ideias de Cruyff, consultor do Barcelona, e que taticamente, adotou como referência o “Carrossel Holandês”, de Rinus Michell (1974), e o Brasil de Telê Santana (1982), que por coincidência, foram derrotados. Ideias executadas em razão do compromisso, equilíbrio e talento, sem improvisação. O combate à corrupção e a subtração dos valores do Barcelona, permitiu o alcance desse estágio fenomenal. E por ser um projeto de critérios racionais, deixou de ser um resultado de ciclo, de uma época de jogadores excepcionais, que logo vai passar. Como se trata de um projeto de sucessão de pessoas, e não de ideias, tem vida longa.
Para entender bem a vitória do Barcelona sobre o Santos, remeto o leitor a ler o livro “A bola não entra por acaso” (Editora Larousse), escrito por Ferran Soriano, que com Cruyff criou e executou esse projeto de gestão no futebol.