Desculpe o leitor, não escreverei sobre futebol. Aos fatos. Fernando Collor de Mello, eleito presidente em 1990, disse que “só tinha uma bala para acabar com a inflação”. Era aquela produzida pela economista Zélia Cardoso de Mello: para congelar o passivo público, tinha que limitar o fluxo de dinheiro para parar a inflação. Então, Zélia anunciou o bloqueio de todos os depósitos em aplicações financeiras com valor superior ao que seria hoje 7 mil reais. As graves consequências de natureza sociais foram um pouco amenizadas pela intervenção do Judiciário.

continua após a publicidade

O governador Beto Richa propôs, e a Assembleia autorizou que toda a arrecadação vá para uma conta única. E ao incluir o dinheiro dos depósitos judiciais, se apropria do dinheiro das partes do processo. A bala de Richa é mais violenta e mais mortal do que foi a de Collor. É que a do “Caçador de Marajás” tinha uma motivação: matar a hiperinflação deixada por Sarney, que já batia na casa, em média, de 29% ao mês. A de Richa é para pagar a divida de um Estado que ele está ajudando a quebrar, e para bancar a obssessão de todos os políticos, que é a reeleição. No Rio Grande do Sul, o governo gaúcho meteu a mão em 4 bilhões de reais do povo em processos, e agora não tem como devolver.

As diferenças bem que poderiam parar ai. A pergunta é: qual será o comportamento do Judiciário diante da bala de Richa? Contra a de Collor, os juizes federais, dos lugares mais remotos do Brasil, intervieram a favor dos depositantes. A Justiça reservou o seu valor maior que é a independência, arma única que o povo tem contra os arbítrios dos governantes. Beto Richa, governador, será o Collor do Paraná. Luiz Carlos Hauly, secretário da Fazenda, que sabe das coisas, mentor de tudo, a Zélia de calças. Resta saber como os outros, que participam, direta ou indiretamente do ato, entrarão para a história.

continua após a publicidade