A alma de Krüger ficou

Em seu “Desassossego”, Fernando Pessoa escreveu: “Somos todos mortais, com uma duração justa. Nunca maior ou menor”.

Dirceu Krüger, assim, silenciosamente, foi embora.

Não choremos por Krüger, que o saudoso jornalista Albenir Amatuzzi, aqui, na velha Tribuna do Paraná, eternizou como o “Flecha Loira”. Não choremos, porque Krüger viveu uma vida tão bela, até por ser dramática para ser contada como ídolo do futebol, que afasta até a própria a razão das lágrimas pela morte.

O drama marcou mais a vida do ídolo do que a excepcionalidade do seu jogo. Era sábado, 11 de abril de 1970, seu aniversário de 25 anos. Repórter da Rádio Guairacá, estava atrás do gol de fundos do Couto Pereira, guardado pelo goleiro Leopoldo, do Água Verde. De repente, Werneck, um meia vindo do Santos, lançou a bola no vazio. O domínio da bola, em velocidade, e a magnitude na sua condução para o gol, foram interrompidos por uma entrada brutal de Leopoldo. Com a alça intestinal rompida, só não morreu por intervenção de Deus.

Quero dizer que chorei por Krüger. Pobre dessa geração de hoje, que não tem ou não terá um ídolo para chorar.

Mas a lembrança mais forte que carrego do “Flecha” foi envelhecida e guardada por sentimentos já aposentados. Era noite de uma quarta-feira de inverno de 1972. Repórter da Rádio Universo, estava atrás do gol de Picasso, goleiro do Atlético. Superior, o Furacão de Sergio Lopes, Sicupira, Buião e Nilson Borges amassava as coxas comandados por Hidalgo. De repente, o golpe: em uma contra-ataque, intrometendo-se entre os zagueiros rubro-negros Di e Alfredo Gottardi, Krüger – uma flecha quase na literalidade – dominou e venceu Picasso. Os coxas ganharam o título que o Furacão merecia ganhar.

Krüger vai continuar maior que a história, a lenda e as lembranças.

Foi tão grande que, em vida, sua história precisou ser contada como lenda.

Foi tão grandioso, que a própria lenda já não conseguia carregar tamanha imensidão. Então, precisou ser transformado em estátua.

Na frente do Couto, está a figura imponente e soberana do grande ídolo.

Qualquer dia, irei lá vê-la. O simbolismo é tão forte que, talvez, consiga ver a sua alma.

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