Publicidade

Cachoeira Santa Cândida

Sonho adiado

Giselle Ulbrich
Escrito por Giselle Ulbrich

A dona de casa Joice Teodoro dos Reis acabou de completar 36 anos e achou que comemoraria o aniversário no apartamento novo do Residencial Cedros, na Rua Alberto Otto, Santa Cândida, que comprou pela Cohab, com benefícios do programa Minha Casa Minha Vida. A obra era para ser entregue em agosto do ano passado. Mas ela diz que a construção ficou totalmente parada, com cadeado no portão, de janeiro a novembro.

Depois disto, a construtora deu três novos prazos de entrega, dois não cumpridos (28 de fevereiro e 31 de maio). O último prazo que a construtora FMM deu aos moradores é o final deste mês de junho. “Mas eu estive lá e contei apenas 16 funcionários trabalhando. Ainda tem muita coisa a fazer e só isso de gente trabalhando não dá conta em 30 dias, de 34 blocos com 544 apartamentos. Dá desespero na gente”, comenta.

A futura moradora disse que tem muito a ser feito no Residencial Cedros: pedaço de asfalto na entrada da guarita, calçadas, pintura das vagas de garagem, ligação de luz nos apartamentos, construção do muro ao redor, colocação de grama, pintura de alguns blocos, instalação de vasos sanitários, colocação de tomadas e de grades nos janelões das salas, entre outros detalhes.

Futuros moradores que foram dar uma olhada nos imóveis relatam problemas de qualidade da construção. Há apartamentos com rachaduras, portas e janelas que não fecham, lajotas quebradas, entre outros detalhes. Segundo eles, como a obra ficou 11 meses parada, ano passado, já houve depredação. Algumas janelas dos blocos perto da rua já foram quebradas.

Ao lado do Cedros, no Residencial Figueiras, que tem 80 apartamentos e e tinha a mesma previsão de entrega do Cedros, o cronograma está bem mais atrasado. “Lá nem calçamento tem nos estacionamentos. Está tudo na terra ainda”, relata.

Dificuldade financeira

Foto: Felipe Rosa
Joice: “Esta tudo na terra ainda”. Foto: Felipe Rosa

Joice reclama da falta de consideração de todas as partes envolvidas, quando pedem explicações sobre o andamento da obra. “A gente liga na Cohab, eles tiram o corpo fora. Ligamos na Caixa, dizem que a responsabilidade é da construtora. Ligamos na construtora e eles ficam nos enrolando com os prazos”, lamenta a dona de casa, que como todos os outros que compraram unidades no conjunto, está pagando uma taxa de evolução de obra, como se fossem juros. É uma taxa cobrada enquanto a construção ainda está em andamento. O valor não é a prestação do imóvel e o que foi pago também não é abatido do financiamento. Só depois da entrega das chaves é que os moradores começam a pagar o apartamento.

“O valor é correspondente à quantia que a pessoa financia. A última eu paguei R$ 442. Mas tem gente que paga R$ 800, mais de R$ 1 mil. E junto com isso pagam aluguel, as contas da casa…”, conta Joice. Ela relata que, por causa do atraso muito aquém do programado, muita gente já entrou em dificuldade financeira. “Sorte que eu, pelo menos, moro de favor e não pago aluguel, apesar de ter ficado desempregada. Mas e esse povo aí? Tá passando uma dificuldade enorme”.

Crise e mau tempo

A Cohab informou que, nas obras da faixa 2 do programa Minha Casa Minha Vida, quem responde pela construção é a empresa construtora, que passou novo prazo de entrega dos residenciais Cedro e Figueiras para agosto de 2016. A Construtora FMM explicou, em nota assinada pelo gerente de comercialização e marketing, Victor Mendes, o que está acontecendo com suas obras. Em 2013, contratou, com a Caixa e a Cohab, 1.895 unidades habitacionais em 15 empreendimentos, na região do Cachoeira. Até dezembro de 2015, entregou 1.271 unidades em 13 empreendimentos, restando os condomínios Cedros e Figueiras, previstos para setembro de 2015. Alega que a instabilidade do mercado da construção civil e o grande volume de chuvas no segundo semestre do ano passado trouxeram dificuldades em manter o ritmo das obras, por isso reprogramou junto à Caixa a entrega das obras.

Segundo a FMM, a prorrogação de prazos está dentro das regras de financiamento com recursos do FGTS, que autorizam a execução da obra em até 36 meses, em casos comprovados de necessidade, sem pagamentos de multa. A empresa afirma que nunca interrompeu nenhuma obra, já que a Caixa faz verificação mensal do andamento. A construtora diz que, das cerca de 350 unidades vistoriadas, menos de 5% apresentaram problemas. “Como o empreendimento tem garantia, os itens apontados serão ajustados até a entrega das chaves”, promete.

Por que parou?

Foto: Felipe Rosa
De 180 foram entregue apenas 40 sobrados. Foto: Felipe Rosa

Bem pior está a situação do Residencial Maringá, da Cohab e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), composto por 180 casas e sobrados no bairro Cachoeira. As obras começaram há cinco anos, mas sempre no ritmo “para e continua”, repetidamente. A última paralisação ocorreu em setembro do ano passado e, de lá para cá, não há mais vestígios de máquinas e trabalhadores. Sequer há placas identificando a obra, dizendo qual o valor do investimento, prazo de início e conclusão e o nome da construtora responsável.

As casas – já com paredes erguidas e telhado, mas faltando acabamentos – foram depredadas e os materiais roubados. Foram levados de lá louças sanitárias, fios de cobre, telhas e tijolos, por exemplo. No Residencial Maringá ficaram prontos apenas 40 sobrados, entregues a pessoas que estavam em áreas de ocupação irregular no Pilarzinho. Um homem que ganhou um dos sobrados, e preferiu não ter o nome identificado, disse que sua mãe se inscreveu na Cohab em 1994. A mulher faleceu há três anos e só no ano passado ele e a irmã foram chamados pela Cohab.

Abandono

Foto: Felipe Rosa
Foto: Felipe Rosa

A Cohab se pronunciou sobre as 180 casas e sobrados abandonados, do Conjunto Maringá I (destinado a famílias que serão reassentadas de áreas de risco), no Cachoeira. A Companhia de Habitação diz que a construtora Yapo não conseguiu cumprir o contrato e abandonou a obra, que tinha previsão de entrega no final de 2014. Por este motivo, não havia placa de identificação da obra, orçada em R$ 6,6 milhões e financiada com recursos federais do PAC. Agora, a Cohab está realizando novo processo de licitação para recontratar outra empreiteira. Em até 30 dias será publicado o edital.

Leia mais sobre Cachoeira e Santa Cândida

Sobre o autor

Giselle Ulbrich

Giselle Ulbrich

(41) 9683-9504