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Curitiba

Mais histórias da aventura do aposentado Alberto no seu Fiat 147 pela América do Sul

Dormindo no “xilindró”

Alberto sempre dormia dentro do 147, onde rebatia o banco de trás e conseguia 1,80 metro de espaço para se esticar. Mas sempre procurava campings para tomar banho e comer. Mas naquela noite, ele chegou na cidade de Sierra Gorda, no Chile, já meio tarde. Ele nunca dirigia à noite e decidiu parar num posto de polícia perguntar se havia algum lugar para dormir por perto. No Chile, a polícia chama-se Carabineros e são mistura de Guarda Municipal, Polícia Militar e Polícia Federal. Estão entre as melhores polícias do mundo, se não é a melhor.

LEIA A MATÉRIA PRINCIPALDe 147 e sozinho, aposentado de Curitiba corta América do Sul

Quem atendeu Alberto foi o próprio comandante, que questionou se ele não tinha lugar para dormir. Quando Alberto explicou sobre sua viagem, o comandante abriu o pátio e mandou ele parar o 147 lá dentro. Avisou que havia ducha e máquina de lavar roupa. “E ainda disse que enquanto eu tomava banho, preparariam uma comida típica do Chile para mim. E também havia camas para eu dormir. Eu expliquei que dormiria no carro, mas ele insistiu que eu dormisse nas camas”, explicou Alberto, que depois de jantar uma comida com fígado e conversar com os carabineiros, ainda fez uma chamada de vídeo para a família.

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“Eles me viram rodeados de policiais e ficaram assustados, perguntando o que eu tinha feito para ser preso. Até que eu contei a verdade, que eram só amigos. Todos caíram na risada”, relembra. Já eram 22h quando o posto policial foi cercado por carros e vários homens armados. Alberto ficou assustado e com medo de algum ataque ou tiroteio. Até que lhe explicaram que aquela era a Polícia Civil local, que passaria a noite ali fazendo um bloqueio, pois naquela região há um fluxo alto de carros roubados e tráfico de drogas vindos da Bolívia. Todos os carros que passavam pelo bloqueio eram parados pelos policiais civis.

Enfim, o pneu!

fiat-147-7No dia seguinte, foi difícil sair do posto policial em Sierra Gorda. Alberto gostou dos novos amigos carabineros e eles não queriam deixar o viajante ir embora, pois também se divertiram muito com ele. Tanto é que ficaram amigos e Alberto fala com o comandante até hoje pelo WhatsApp. Mas ele teve que ir. Seguiu o conselho dos policiais de abastecer o tanque até a boca e ainda levar mais um reservatório extra que ganhou dos policiais, pois o caminho até Antofagasta era muito longo e quase não havia abastecimento no caminho.

E assim Alberto foi, decidido a conhecer o Oceano Pacífico. Chegando na cidade litorânea de Antofagasta, foi num hipermercado, mas não encontrou pneu aro 13. Meio decepcionado, sem saber o que fazer, acabou se deparando com uma borracharia no caminho, que tinha um único pneu aro 13 disponível. O borracheiro o vendeu a Alberto ao preço de 20 dólares, para se livrar logo da “encrenca”, visto que o produto estava há tempos encalhado lá e ninguém comprava. E assim Alberto saiu feliz, para conhecer a cidade de Santiago.

“Chupeta” no brutamontes

No caminho para Santiago, Alberto dormiu num posto de combustíveis que ele diz ser um “espetáculo”. Todos os postos da rede são grandes e bem estruturados, com chuveiros limpos e boas opções de comida. Ao acordar, tinha outro carro pequeno ao seu lado, com um casal de chilenos com filhos, que vieram falar com Alberto. Eles simpatizaram com o 147 e perguntaram onde o aposentado ia. Decidiram seguir juntos para Santiago. Passaram pela Baía dos Ingleses, onde a estrada é feita de uma mistura de sal e minérios, material que resiste ao frio e ao calor intensos do deserto.

Bem no meio do nada, viram um caminhão parado com o capô aberto. No deserto, os motoristas possuem um “código de ética”. Quando há alguém parado com problemas, deve-se parar para ajudar, visto que o local é ermo e não há nada em volta. O motorista de um caminhão enorme havia parado para urinar e, quando voltou e deu partida, o caminhão estava sem bateria e não pegou. Alberto e a família do outro carro pararam para ajudar. Tinham ali uns cabos para ligação direta e conectaram a bateria do caminhão à do 147. E não é que o “autito” do Alberto fez o gigante ligar!

E assim foram embora. Chegaram a uma cidadezinha com o combustível “na mica”.

Desidratar ou congelar?

Alberto Carlos Fröhlich cruzou a América do Sul em seu 'autito'. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do PAraná
Alberto Carlos Fröhlich cruzou a América do Sul em seu ‘autito’. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do PAraná

Depois de se despedir do casal de chilenos e cada um ir para um canto, Alberto segui sozinho pela rodovia Panamericana. Viu uma estradinha secundária partindo da rodovia e decidiu entrar, só para ver o que tinha lá. Andou 10 quilômetros e chegou num monumento, chamado La Mano del Desierto, no meio do nada. Parou, contemplou, fez fotos, saciou sua curiosidade e decidiu ir embora. Na hora de dar a partida no carro, a chave não virava e o volante estava travado.

Ele precisava desmontar o miolo do volante, mas viu que das ferramentas que tinha, nenhuma era do tamanho exato da porca que estava lá. “Aí eu pensei, se eu for andando até a Panamericana pra pedir ajuda, vou ficar umas duas horas andando nesse calor desértico e vou desidratar. Se eu dormir aqui, à noite vou congelar. Sei que olhei, pensei, até que consegui desmontar a ignição dando umas pancadas nas peças. Arrumei tudo e fui embora”, diz ele.

Muito mais aventuras!

Essas histórias são apenas uma parte de tudo o que Alberto viveu. Ele ainda passou maus bocados nas mãos de mecânicos perto de Santiago, esperando as oficinas abrirem depois do Natal para consertar o rolamento quebrado de uma das rodas (e por causa de um simples comentário de Alberto, o mecânico se enraiveceu e mandou o aposentado fazer ele mesmo o serviço); o carro arrombado em Vinha Del Mar; foi para o Aconcágua, onde conheceu um casal de motociclistas curitibanos; as noites que ele dormiu em postos policiais, alguns que sequer tinham luz, como em Santa Fé, na Argentina, onde Alberto teve que emprestar o seu celular para os policiais pedirem ajuda; e as andanças pelo Uruguai e a volta ao Brasil, sempre cheias de aventuras, coisas boas e grandes sustos.

Foram 42 dias de viagem, 15 mil quilômetros rodados e R$ 9 mil gastos. Alberto, aposentado, pessoa simples mas com uma simpatia gigante, queimou umas economias que tinha para a viagem. “Mas para mim, sucesso na vida não é ter dinheiro, nem uma conta bancária robusta. É ter um bom relacionamento com as pessoas. E nessa viagem conheci muita gente, aprendi muita coisa, vivi muitas experiências legais. Pra mim, cidade é cidade. O que vale são as paisagens. E das 10 estradas mais bonitas da América do Sul, eu andei em quatro”, orgulha-se ele, que agora planeja levar a esposa Célia na próxima aventura a bordo de uma Panorama (o “perua” do Fiat 147), que ele próprio está reformando.

Sobre o autor

Giselle Ulbrich

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