Vem mais paralisação por aí, e não é dos caminhoneiros. Desta vez serão os petroleiros, que param as atividades da Petrobras em todo o Brasil a partir das 0h desta quarta-feira (30), por um período de 72 horas. Com isto, o abastecimento de combustíveis nos postos da grande Curitiba, que sequer normalizou (e deve demorar duas semanas para isto), pode ter mais alguns dias de tanques vazios.

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A principal pauta de reivindicações dos funcionários é não privatizar a “Petrobras, pois a venda tem a ver justamente com uma das reivindicações dos caminhoneiros, de baixar o preço dos combustíveis (não só do diesel) nas bombas. Anacélie de Assis Azevedo, secretária geral do Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro PR/SC), explica a relação entre privatização e preço. Conforme a sindicalista, há um ano a Petrobras estabeleceu uma nova forma de taxar os combustíveis, equiparando com o preço do mercado internacional.

Foto: Marcelo Andrade

Com isto, o preço do combustível subiu. Em 10 meses, foram 115 aumentos do diesel, etanol e gasolina, e o preço do gás de cozinha subiu 70% neste período. E segundo a sindicalista, o preço foi aumentado e a carga produtiva diminuída justamente para que empresas internacionais entrassem no País, para competir neste mercado. Assim, o País, que não tem a necessidade de importar petróleo – a Petrobras consegue sozinha abastecer o Brasil, pois é o sétimo do mundo em mercado de derivados – anda trazendo o produto de fora.

Controle interno

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Na visão do Sindipetro, se a Petrobras conseguir controlar seu próprio mercado interno, sem interferência de empresas estrangeiras, tem condições de baratear o combustível para o consumidor final. Sendo assim, se mais empresas internacionais entrarem no País, mais difícil será para a Petrobras essa redução e o combustível vai disparar de preço.

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Por enquanto isto ainda é fácil, porque a Petrobras ainda detém boa parte do mercado. Por isto, o Sindipetro é contra a privatização, processo que colocou as refinarias das regiões Sul e Nordeste à venda no último dia 27 de abril.

Unidades à venda

Foto: Gerson Klaina

Conforme um informativo do Sindipetro aos petroleiros, desde que o administrador Pedro Parente assumiu a Petrobras, em maio de 2016, ele já disponibilizou à concorrência internacional mais de 30 ativos estratégicos da empresa, como campos do pré-sal, sondas de produção, redes de gasodutos do Sudeste e do Nordeste, distribuidoras de gás, petroquímicas, termoelétricas e usinas de biocombustíveis. Soma-se a isso a venda da Araucária Nitrogenados (Fafen-PR) e da Unidade de Fertilizantes-III (Fafen-MS), que estão sendo adquiridas pela multinacional russa ACRON, e a privatização de quatro refinarias (Repar, Refap, Rlam e Abreu e Lima), seis terminais aquaviários, seis terminais terrestres e 46 dutos.

Além desses ativos estratégicos, ele também abriu para o mercado a privatização de 71 campos de produção terrestre, 33 campos de águas rasas e outros três de águas profundas; o setor de biocombustíveis (PBio) e a Transportadora Associada de Gás (TAG).

Crise do petróleo

A secretária geral do Sindipetro, Anacélie de Assis Azevedo, ressaltou que esta greve dos petroleiros já estava sendo discutida há um mês e foi aprovada pela categoria no final do mês passado, muito antes de se falar em paralisação dos caminhoneiros. No entanto, ela avalia que o problema com o desabastecimento de combustíveis no Brasil, por conta da paralisação, está sendo benéfico, pois dá visibilidade à causa dos petroleiros que, na prática, acaba sendo a mesma dos caminhoneiros: a redução do preço dos derivados de petróleo. Ela também explica que a intenção não é prejudicar a população. “Ninguém vai passar fome ou passar necessidade, pois o abastecimento dos serviços essenciais será mantido”, garante ela.

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Anacélie ainda alerta que balizar o valor do petróleo brasileiro com o preço internacional é perigoso, pois o custo do barril varia muito lá fora devido à demanda do produto e a vários outros fatores, inclusive as guerras que ocorrem no mundo por causa de petróleo. Seria mais seguro, menos volátil e mais barato ao consumidor final a Petrobras controlar o seu próprio preço internamente.

Desabastecimento

Foto: Marcelo Andrade

O Sindicato dos Revendedores de Combustíveis e Lojas de Conveniências do Estado do Paraná (Sindicombustíveis) entende a greve dos petroleiros como completamente inoportuna, por conta da provável continuidade do desabastecimento no Paraná. “O momento é de uma retomada do abastecimento de combustíveis, justamente por conta da normalização do fornecimento. O desabastecimento de combustíveis já estava colocando em risco setores como a saúde e a segurança. Hospitais, por exemplo, estavam remarcando consultas e atendimento de quimioterapia de pacientes que precisam se deslocar do interior para Curitiba.”, afirma o sindicato em nota.

Petrobras

Conforme o jornal O Globo, o presidente da Petrobras, Pedro Parente, enviou uma carta aos funcionários ontem, pedindo uma reflexão sobre o atual momento de crise. O documento afirma que paralisações e pressões (inclusive pela demissão dele) para a redução de preços representam um retrocesso que pode prejudicar consumidores, a empresa e, em última instância, a sociedade brasileira.

“A opção de praticar preços abaixo da referência do mercado do petróleo aumentaria nosso endividamento, colocando em risco a realização dos investimentos que garantem o nosso futuro. Não existe alternativa sem custos, preços desconectados da realidade do mercado significam que alguém está pagando a conta, e as leis do País estabelecem que não é a Petrobras. Ao longo do ano passado, a nossa participação de mercado no diesel caiu porque as importações aumentaram substancialmente nos momentos em que o nosso preço estava acima do mercado internacional. Desde então, recalibramos a política de preços e recuperamos nossa participação no mercado”, disse Parente na carta, defendendo a política de preços da companhia e ressaltando que manter os combustíveis com valores artificialmente baixos endividaria a empresa.

Em relação à pressão dos petroleiros pela demissão de Parente, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que o assunto não está em questão, mostrando seu contentamento com o trabalho do administrador à frente da companhia.

Vai na paciência!