Já ouviu falar na brincadeira que você deve gritar “Fusca” quando ver um deles passando pelas ruas? É uma brincadeira entre amigos em torno do lendário carro. Para o reciclador de eletrônicos Olaviano Marques de Oliveira Neto, 69 anos, o Fusca é coisa séria. Vimos seu besourinho, gritamos e paramos! Para poder contar a história do carro.

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O veículo é todo plotado com símbolos da aeronáutica, frases de guerra e bandeiras de países, além de possuir barras de proteção por todos os lados, s conhecido “Santo Antônio”. Um engate, que puxa uma carreta que lembra as de transporte de animais de grande porte também desperta a curiosidade. Mas ao invés de bichos o reboque é recheado de sobras de eletrônicos, computadores, televisores e tudo o que se pode reciclar e fazer a engenharia reversa.

Descobrimos que o Fusca estilizado carrega uma história de ganha-pão, mas também é uma ferramenta de preservação do meio ambiente.

A plotagem da Força Aérea Brasileira (FAB) no Fusca é por paixão e ligação com a força armada. “Comecei na Aeronáutica em 1968 e saí em 1970. Fui soldado, cabo e sargento na Base Aérea de Curitiba. Saí por causa de problemas na coluna”, relembra Olaviano.

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A base aérea a qual ele se refere é o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA II), uma unidades de controle do tráfego aéreo. “Meu pai foi mecânico da FAB e participou da Segunda Guerra Mundial. Meus filhos, depois, também serviram no mesmo lugar”, conta o reciclador.

Um deles, Luiz Renato Figueiredo Marques de Oliveira, 34 anos, diz que também serviu na base por quatro anos. “Entrei em 2003. É uma história de família, meu irmão também serviu. E sobre o meu avô na Segunda Guerra, ele chegou a ganhar medalha. Só que ela não existe mais, se perdeu ao longo dos anos e ninguém sabe o que foi feito dela. Até se ela existiu de verdade é um mistério”, brinca Luiz Renato.

Olaviano Marques de Oliveira Neto é ex-militar da Aeronáutica e deixou a corporação por problemas de saúde. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná
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Enquanto os filhos serviam, Olaviano começava o negócio de reciclagem de eletrônicos. “Faz 15 anos que estou no ramo. Eu já pensava nisso há muito mais tempo. Aqui, no Brasil, chamam de catador de lixo eletrônico, mas isso é engenharia reversa. Falam que sou lixeiro, catador de lixo. Só que, na verdade, eu dou destino certo para esse tipo de material. Não pode ir parar nos rios, não pode ir parar no meio ambiente. Eu me sinto contribuindo para o planeta”, explica.

Exemplo

O Fusca foi comprado para o trabalho há quase seis anos, em 11 de outubro de 2013. O modelo é 1977, branco, duas portas, de 46 cavalos. O motor era 1300 L, mas uma troca da mecânica veio junto com as customizações no carro. “Eu subia de Paranaguá com dificuldade. Tinha que botar primeira na serra. Agora não, dei uma mexida no motor e consigo subir a mais de 100 km/hora. Quem nunca, não é mesmo?”, brincou Olaviano.

Antes do fusqueta, ele usava uma caminhonete da Ford, modelo F 100, na cor azul. “Daquelas antigas, sabe?”.

Além da plotagem da aeronáutica e dos “Santo Antônio”, as bandeiras dos países com quem são negociados os restos de equipamentos eletrônicos marcam território. “O Japão é o maior freguês. Os outros são Brasil, Alemanha, Israel e Estados Unidos. Empresas e particulares me ligam para eu recolher os restos. Pego o material e as empresas que são minhas parceiras trituram e encaminham para o exterior nos navios. A coleta é de graça, depois eu negocio com quem exporta. Quando há material que dá para usar, como televisão ou micro-ondas, eu faço doação para quem precisa”, revela.

A carreta engatada no fusca é artesanal. “Eu mesmo montei”, conta Olaviano. Os restos de eletrônicos, que são o forte da coleta, vão dentro dela. No entanto, outros tipos de descarte também têm vez. “Recolho óleo de cozinha, para a fabricação de massa para vidros de janela. Às vezes, vêm móveis usados e algum outro tipo de reciclável que tenha valor pra mim. Também pego documentos que as empresas querem triturar. Mas os fortes são meus filhos, eu vou comendo pelas beiradas”, explica.

Fusca adesivado com símbolos das Forças Armadas chama atenção por onde passa. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná

Os materiais coletados são armazenados em sacos apropriados. Os produtos coletados são moídos pelas empresas que os compram e revendidos. “Vem coisa até de Foz do Iguaçu”, revela.

A parceria com os filhos surgiu quando eles deixaram a Aeronáutica e abriram outra empresa, a Akatar Comercial Reciclagem. Luiz Renato conta que eles trabalham com materiais mais refinados. “A gente também compra e revende. E mantemos a parceria com o pai, em família, comprando dele também. No final, tudo da certo”, diz Luiz Renato.

Enquanto a família toca a vida, o Fusca de Olaviano vai chamando a atenção por onde passa. Para ele, algo feito na melhor das intenções. “Faço de coração, para proteger o meio ambiente. E faço com muito orgulho e muito amor. Luto para termos um bom ar para respirar. Luto para ter rios limpos. Para que, quando chover, não tenha sofrimento com enchentes. Para que a nossa cidade seja mais limpa e saudável. É isso que procuro fazer de melhor”, finaliza do dono do fusqueta da Aeronáutica.

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