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Alto da XV Curitiba Hugo Lange

Fora dos trilhos

Por Maria Luiza Piccoli

Se para alguns o apito da locomotiva traz à cabeça belas imagens da Serra do Mar, pra outros o som do trem provoca verdadeiros calafrios. É o caso do taxista Maximiliano José, 77, que em 2003 teve o carro arrastado por uma composição, enquanto passava pelo cruzamento da linha férrea com uma rua do bairro Santa Mônica, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).

“Não tinha sinaleiro, mas o trem estava longe, dava tempo de passar. O problema foi quando o carro morreu em cima dos trilhos e não ligava de jeito nenhum. Decidi descer a pé, mas o cinto de segurança travou. Por sorte minha filha me ajudou a soltar o cinto. Foi o tempo exato de saltar pra fora do carro em meio ao som da buzina do trem e dos gritos da minha filha”, contou. De acordo com o taxista, o carro chegou a ser arrastado cerca de 10 metros até que a composição parasse completamente. “O maquinista acionou os freios de emergência, mas o trem não parou imediatamente. Tivemos perda total do carro, mas graças a Deus saímos ilesos desse acidente”, disse.

Foto: Átila Alberti.
Foto: Átila Alberti.

Histórias como a de Maximiliano são relativamente comuns no Estado. Dados da Associação Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apontam que entre janeiro e outubro de 2017 aconteceram 60 acidentes ferroviários no Paraná. Só este ano, a Tribuna já noticiou seis casos na capital e região metropolitana, um deles com óbito, no Uberaba.

Em maio, duas ocorrências no mesmo dia, e num curto intervalo de tempo, comprovam que acidentes com trens são realmente mais comuns do que se imagina. Ambos os casos envolvendo carros e composições – os chamados abalroamentos – aconteceram em cruzamentos de Pinhais, na RMC, no último mês de maio. Em ambos, os envolvidos tiveram ferimentos leves, e os danos foram apenas materiais.

Relembre outros casos de acidentes com trens na Grande Curitiba em 2017:

Trem atinge carro no Hugo Lange e motorista escapa por um triz

Acidente entre carro e trem bloqueia trânsito no Bacacheri

Selfie quase termina em tragédia no Caminho do Itupava

Homem morre atropelado por trem no Uberaba

Tá na lei!

No Brasil, as normas relativas à sinalização ferroviária estão previstas no decreto 90.959/85, e são regulamentadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Com o crescimento populacional, as áreas adjacentes às linhas dos trens passaram a ser ocupadas de forma irregular, e as consequências recaíram tanto sobre a segurança da população quanto sobre o próprio desempenho operacional das ferrovias.

Para adequar a circulação ferroviária às novas configurações habitacionais nos grandes centros, a lei prevê sinalização específica para os cruzamentos entre vias e linhas férreas, também chamados “passagens em nível”. A sinalização deve ter, por exemplo, faixas brancas no chão, placas de fácil visibilidade e sinais luminosos. Em alguns casos, dependendo do risco, até mesmo cancelas e alertas sonoros são instalados para prevenir acidentes.

Breno teme pela segurança. Foto: Átila Alberti.
Breno teme pela segurança. Foto: Átila Alberti.

Travessia perigosa

O problema, é que por falta de manutenção, a sinalização se torna confusa pra muita gente, e em alguns cruzamentos da capital, o motorista avança apreensivo sobre os trilhos, sem saber exatamente se o trem está vindo ou não. Um exemplo é a esquina das ruas Marechal Deodoro e Padre Germano Mayer, no Alto da XV, onde as luzes vermelhas piscam sem parar, dando a entender que o trem pode passar a qualquer momento.

Algumas quadras pra trás, outro cruzamento confunde o motorista. Dessa vez, na esquina das ruas Fernandes de Barros e Conselheiro Carrão, no Hugo Lange, onde as luzes estão sempre desligadas. O consultor de marketing Breno Cunha, 27 anos, cruza a via todos os dias para chegar ao escritório onde trabalha, às margens da linha férrea.

Amauri ressalta que pedestres e ciclistas também correm perigo. Foto: Átila Alberti.
Amauri ressalta que pedestres e ciclistas também correm perigo. Foto: Átila Alberti.

Ele admite que o trecho causa insegurança em quem trafega por lá. “A gente sabe que o trem está vindo por causa do apito. As luzes não ligam e quem precisa cruzar o trilho vai na base da adivinhação”, comentou. Para o advogado Amauri Santos, que também trabalha na região, a passagem desavisada do trem não ameaça apenas a segurança dos motoristas, mas também dos pedestres e ciclistas que transitam pelas marginais. “O bairro é residencial e sempre tem gente andando ou praticando exercícios perto da via férrea. A gente não sabe quando o trem vai passar e o perigo é constante”, afirmou.

Tem jeito de resolver?

A discussão de soluções para o problema vai desde a instalação de cancelas antes do acesso aos trilhos, até a construção de um anel ferroviário que desvie a malha do perímetro urbano. Na Câmara Municipal de Curitiba os debates têm ultrapassado a questão da segurança, chegando também a abordar outros fatores como o barulho das composições, e o incômodo causado pela passagem dos trens em determinadas horas do dia. Ao todo, mais de 15 propostas relativas ao tema já foram apresentadas nos últimos 10 anos. A mais recente é de maio deste ano, na qual o vereador Jairo Marcelino (PSD), propôs que a passagem dos trens pela cidade fosse permitida somente após as 9h, devido ao barulho. A questão segue em discussão, e a empresa responsável pela exploração ferroviária no Paraná, Rumo (antiga ALL), mantém a circulação irrestrita.

Rumo se defende

Já no que diz respeito à sinalização, a empresa informou, em nota, que tem seguido todas as normas vigentes e que “procura causar o menor impacto possível à população”. A empresa reforça que é obrigação legal da administração pública, por meio dos órgãos ou entidades de trânsito, implantar, manter e operar o sistema de sinalização, os dispositivos e os equipamentos de controle viário; que a ferrovia é sempre preferencial; e que deixar de parar o veículo antes de transpor linha férrea é infração gravíssima, prevista em lei e sujeito a multa.

Quanto à instalação de cancelas para segurança, a Rumo afirmou que é feita “de acordo com estudos realizados individualmente em cada passagem em nível, que determinam se há necessidade do dispositivo”. A empresa salienta que as cancelas não são consideradas uma forma de sinalização totalmente segura e que já propôs ao município a formação de um comitê para discutir o assunto.

Foto: Átila Alberti.
Foto: Átila Alberti.

Pare, olhe, escute!

Em nota enviada à Tribuna, a Prefeitura de Curitiba afirmou que “a Superintendência de Trânsito de Curitiba tem debatido a questão com a empresa Rumo” e que na semana passada, uma reunião foi realizada para tratar do assunto e discutir alterações nas sinalizações das passagens de nível, levando em conta o aumento do fluxo de carros e de trens pela cidade, registrado nos últimos anos”. A partir daí, segundo a administração municipal, a intenção é firmar um novo convênio entre as partes. A Superintendência de Trânsito orienta o motorista a parar o veículo em todo o cruzamento com a linha férrea e olhar para ambos os lados para se certificar de que não há nenhuma composição de vagões se aproximando, antes de atravessá-la.

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