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Curitiba

A alma do circo!

“Pra trabalhar como palhaço precisa de três coisas: nariz, peruca e inteligência pra decorar os textos”, diz Carlos Antônio Rodrigues, 48 anos, mais conhecido (e apenas conhecido) como palhaço Maxixinho, atualmente trabalhando no Circo Fantástico. A história de vida e a relação dele com o circo dão um filme.

Tudo começou na cidade de Mossoró (RN), onde chegou o circo que o pai dele (palhaço Maxixe) trabalhava. A mãe de Carlos Antônio conheceu o palhaço, engravidou dele e seguiu estrada com o novo amor. Mas voltou para Mossoró para ter o bebê. Porém não demorou muito para deixar a criança com as tias e voltar para a vida itinerante com Maxixe. Só que ela não aguentou tanto tempo na estrada e a saudade da criança e retornou a Mossoró, para ficar definitivamente com o filho. E sempre contava a ele quem era o pai e o que fazia no circo.

Carlos Antônio passou a infância brincando de circo com os amigos, no quintal de casa. E não se cansava de procurar pelo pai, pois todo circo que se instalava em Mossoró, ele ia perguntar se conheciam o Palhaço Maxixe. “Todos diziam que o conheciam, mas não sabiam onde estava”, conta.

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Reencontro

Quando Carlos Antônio já tinha 20 anos, fez como de costume: foi a um circo que se instalou em Mossoró perguntar do pai. Quando chegou lá e os artistas olharam para ele, já foram perguntando se era o filho de Maxixe, por causa da semelhança física. “Aí foram chamar meu pai e quando ele olhou pra mim já foi dizendo: ‘fio de uma tripa’. Não tem nem dúvida que é meu filho. É igual”, brinca Carlos Antônio.

Desse dia em diante, o rapaz se juntou ao pai, tornou-se o palhaço Maxixinho e seguiu estrada com ele. Até que cada um foi para um circo diferente, mas de vez em quando se encontravam pelo caminho. Hoje o palhaço pai já não é mais vivo.

Família itinerante

Quando decidiu seguir estrada com o pai, Maxixinho convidou a namorada para ir junto. Ela ficou meio receosa, mas aceitou. Já faz quase 30 anos. Casaram-se numa igreja da cidade onde o circo parou e hoje eles têm uma filha, Karlênia, artista com vários números durante o espetáculo. “No dia que minha esposa começou a sentir as dores de parto, saí correndo procurar um carro emprestado pra levar ela na maternidade. Quando eu voltei, o bebê já estava chorando dentro do trailer”, diz Maxixinho. Quando família está de férias, volta a Mossoró descansar e rever os parentes e amigos.

Felipe Rosa / Tribuna do Parana - AGP

Felipe Rosa / Tribuna do Parana – AGP

Fórmula da alegria

Nordestino de raiz, Maxixinho diz que para ser palhaço tem que ser comunicativo e alegre. “Sou popular porque gosto de brincar com as pessoas. Antes do espetáculo, fico vendendo pipoca na entrada, brincando com todo mundo”, diz ele, mostrando também a fórmula para continuar atraindo as crianças, num mundo cheio de tantas tecnologias que atraem a atenção delas.
“A concorrência com o teatro, o cinema, as redes sociais é muito grande. A cada 10 pessoas que vemos, nove estão conectadas. Mas o circo é a mãe de todas as artes, uma arte sem censura, por isso ainda encanta a todos. E enquanto tiver uma criança no mundo, o circo não vai acabar, nem envelhecer”, diz o palhaço.

Respeitável público

Foi-se a época que os circos tinham atrações com animais. Mas em 12 estados brasileiros há leis que proíbem os animais durante as apresentações. Assim, vários circos tiveram que inovar, investir em tecnologia e em conforto ao público. E deu certo, pois quem vai ao circo ainda continua gostando muito do que vê.

Assim o diga o militar aposentado Admilson Roberto Zampieri dos Santos, 56 anos, que levou a neta Alis dos Santos Simão, 4 anos, ao circo. Era uma noite fria e chuvosa, de uma terça-feira em Curitiba. O espetáculo no Circo Fantástico começava apenas às 20h30, mas às 18h ele já estava lá para pedir informações de horários, preços dos ingressos e pegar um lugar privilegiado para a neta enxergar tudo da primeira fila.

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Admilson e a neta no circo. Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

Era a primeira vez de Alis no circo. Ela já sabia que ia ver palhaço, que talvez o visse andando numa bola, entre outras coisas que o vovô já tinha contado a ela que poderia ter. Por iniciativa da família, Alis não tem tanto contato com as tecnologias modernas. De vez em quando, brinca no tablet. “Mas controlamos bastante. E quis trazê-la aqui para despertar o interesse pelo circo”, conta o avô.

20h30 em ponto e começa o espetáculo. A primeira apresentação era um quadro de dança, com dois bailarinos na lira (bambolê aéreo). Alis olhava atenta para cima, para cada movimento do casal. Mas a cada nova atração, seus olhos iam ficando cada vez mais arregalados.

Ao final, Alis disse ter gostado muito do número de mágica. Mas não é o que o corpo dela dizia, pois enquanto falava da moça que “desapareceu” na caixa, a menina tentava colocar o pé atrás do pescoço, igual como viu a jovem contorcionista fazer no picadeiro.

Projeto Guritiba leva família ao circo

A família da dona de casa Priscila Ribeiro dos Santos, 26 anos, também foi ao Circo Fantástico. Ela e os seis filhos olhavam atentos ao espetáculo. Enquanto algumas crianças observavam comedidas aos artistas, outras vibravam com as atrações. Felipe Kauã Ribeiro Gonçalves, 10 anos, era o mais empolgado. Ficou boquiaberto com os trapezistas, riu com o palhaço Maxixinho, mas o que ele mais gostou foi das motos no Globo da Morte.

A família de Priscila foi convidada pelo projeto Guritiba para ir ao circo. Conforme Carol Scabora, coordenadora do projeto, o objetivo é pegar famílias em vulnerabilidade social, que nunca foram a nenhuma atividade cultural, e leva-las a algum espetáculo. “Queremos usar a arte como um sujeito transformador das pessoas”, explica Carol, mostrando que o efeito é subjetivo e diferente em cada um. Antes de levar a família de volta para casa, os leva ao Madero, restaurante parceiro do projeto e que oferece um jantar às famílias. E geralmente é nesta hora descontraída que as crianças acabam expressando o que acharam dos espetáculos, trocam ideias, conversam e volta a ser “família”.

Carol conta que uma vez levou um casal com a filha de 15 anos a uma apresentação da Orquestra Sinfônica. O pai, por motivos diversos, comunicava-se pouco com a família, demonstrava pouco os sentimentos. “Neste dia, ele se empolgou com a orquestra, comentou com a esposa da época de infância, quando tocava na fanfarra da escola, a abraçou com carinho. Depois, no restaurante, eles cantaram parabéns para a filha, que estava de aniversário, conversaram mais. Ali vimos o resgate da família através da arte”, disse Carol, contando que foram vários os casos que viu a cultura reaproximar famílias vulneráveis, resgatar a alegria nas crianças.

Sem amadorismo

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Giselle Ulbrich

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