Em Curitiba, mendigos e moradores de rua incomodam moradores e comerciantes | Tribuna PR - Paraná Online

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Centro

Problema sério!

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná
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Escrito por Lucas Sarzi

Os moradores de rua se tornaram uma reclamação constante de quem passa todos os dias pelo Centro de Curitiba e, ao mesmo tempo, um trabalho intenso de convencimento por parte dos funcionários da Fundação de Ação Social (FAS). Na capital paranaense, atualmente 1595 pessoas estão registradas em situação de rua e que, como já foi dito várias vezes, só podem ser levadas aos abrigos se quiserem. A maior parte dessas pessoas, conforme uma avaliação da própria FAS, usa drogas.

O número de pessoas na rua pode ser maior, pois o que a FAS tem registro oficial é o de moradores de rua com cadastro único, que permite inclusive saber em quais cidades a pessoa passou. Apesar disso, em 2017, foram 2750 atendimentos (destes, alguns de pessoas em trânsito, que receberam o atendimento, mas não ficaram na cidade) e 2400 moradores de rua receberam atendimento médico.

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Andar pelo Centro de Curitiba e não ser abordado por algum dos moradores de rua se tornou algo difícil, principalmente no entorno da Praça Rui Barbosa, Praça Tiradentes e até mesmo a Praça Carlos Gomes. “A minha concepção é a de que a cidade está cada vez pior. Se não fosse só por estarem pelos cantos, ainda tem o cheiro ruim”, desabafou uma mulher que trabalha na Rua Doutor Muricy, mas que prefere não ser identificada.

A marquise da Biblioteca Pública do Paraná, que antes era usada como ponto de abrigo para os moradores de rua, agora foi desocupada. Apesar disso, na Rua Doutor Muricy, as pessoas têm tomado conta de marquises de lojas fechadas ou ainda de algumas que funcionam apenas como depósito. “Teve um dia que os funcionários da loja tiveram que pedir para que os moradores saíssem da frente da porta para que pudessem entrar. Chega a ser ridículo”.

Por ali, mais de dez pessoas dormem todas as noites. “Esses dias contamos 13, todos no mesmo espaço. As pessoas chegam a desviar pela rua para não passar pela calçada, porque sentem medo. Isso quando eles não brigam entre eles ou, alcoolizados, quase são atropelados, como aconteceu na semana passada”, contou outra funcionária de uma loja em frente ao ponto onde os moradores de rua ficam.

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A mulher, que trabalha ali há cinco anos, mas que também pediu para não ter o nome divulgado, disse que a situação sempre foi complicada na região central, o que realmente não é novidade para ninguém, mas que de um ano pra cá a coisa piorou. “Antes ficavam mais pra cima, na Rua Cruz Machado, mas mudaram. Tinha que ter uma lei para impedir que ficassem na rua, não uma lei que proibisse a FAS de removê-los. Todo mundo sabe que, pelo menos mais da metade deles, está na rua porque quer, não por opção”.

Centrão ocupado

Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná
Foto: Felipe Rosa/Tribuna do Paraná

As praças Rui Barbosa e Tiradentes sempre foram os pontos principais de ocupação dos moradores de rua em Curitiba. Na primeira, a situação se faz ainda mais complicada, porque quando essas pessoas são acordadas, começam a incomodar quem está trabalhando na Rua da Cidadania Matriz e quem passa por ali. “Nós ficamos de mãos atadas, porque se agimos, estamos errados, se não agimos, a população reclama que não fazemos nada. As leis garantem que eles fiquem na rua, então, o que fazer?”, comentou um guarda municipal que, por garantia, também não se identificou.

Segundo o guarda, a FAS tem feito o trabalho intensamente, mas nem sempre pode fazer o que a população julgaria como necessário. “Não dá pra tirar ninguém da rua à força, só sai quem quer. A gente costuma acompanhar as ações, mas é sempre a mesma coisa. O que essas pessoas não querem é seguir regras, pois sabem que se forem para um abrigo vão ter que dormir cedo, lavar as roupas, tomar banho e, principalmente, deixar de usar drogas. Tem até guarda respondendo ação no Ministério Público porque acordou morador de rua”.

Na Rui Barbosa, os moradores de rua ficam espalhados por todo o entorno da praça. “As pessoas brincam que na minha cidade, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, os jacarés andam pela rua, mas pelo menos lá não é assim. Você não vê moradores de rua espalhados pela praça no Centro, muito menos esse povo numa situação deplorável como encontramos aqui”, contou uma idosa de 70 anos.

A mulher, que é aposentada, disse que a igreja que frequenta tem tentado fazer um trabalho de acolhimento às pessoas que estão na rua. “Mas empacamos naquela situação de que a pessoa precisa querer e nem sempre quem está na rua quer ser ajudado. Mas que algo precisa ser feito, que a prefeitura precisa agir, precisa. Sem contar que a população reclama que eles incomodam, mas é a própria população que ajuda com alimentos e roupas”.

Mudando a abordagem

Foto: Aniele Nascimento/Arquivo/Tribuna do Paraná
Foto: Aniele Nascimento/Arquivo/Tribuna do Paraná

Conforme a FAS, os 12 abrigos existentes nunca esgotam a capacidade máxima, que é de 1188. Na segunda semana de julho, quando as temperaturas ficaram abaixo de 3ºC nas madrugadas, as equipes da FAS intensificaram o trabalho nas ruas, mas ainda assim não foram todos os abordados que quiseram ir para os abrigos: das 398 pessoas encontradas, apenas 196 pernoitaram nos abrigos públicos.

Apesar de ainda praticado, pois precisa continuar, o antigo método de abordagem da FAS tem, aos poucos, dado espaço a uma nova forma de abordagem aos moradores de rua. “A gente tem investido bastante em traçar um plano de vida para essas pessoas que aceitam ajuda. Porque ainda que pudéssemos tirar à força essas pessoas, de nada adiantaria. Buscamos convencê-las de que vai ser melhor e que aceitem por conta própria, para que possamos até mesmo conseguir emprego para que mudem de vida”, explicou Maria Alice Erthal, diretora de atenção à população em situação de rua.

Ela confirmou que a maioria das pessoas não quer ser ajudada, principalmente pela questão da droga. “Por isso que, cada vez mais, não adianta só a abordagem na rua, pois um grande número não quer ajuda. Essa questão da droga prejudica um pouco, porque eles não querem obedecer algumas regras que são impostas nos abrigos”.

Mudando a forma de abordagem, as pessoas se sentem mais seguras para aceitar ajuda. “Porque, querendo ou não, sabemos que na rua são tratados e olhados pelas pessoas como lixos. Quando nós paramos para ouvi-los, eles se sentem bem até por ter alguém olhando nos olhos deles, mas isso tem sido um trabalho intenso e não podemos cansar, mesmo com críticas”.

Como disse um dos entrevistados pela Tribuna, a questão da ajuda que é dada por igrejas ou outras instituições, como comida, roupas e colchões, é algo que a FAS contesta. “A FAS é contra essa ajuda dada aos moradores de rua, como comidas, porque precisa ser algo controlado. Temos, por exemplo, o expresso solidariedade, que é feito para isso, mas aí precisa haver o apoio da fundação para que seja feito da forma correta. Por isso pedimos sempre que quem quiser ajudar primeiro nos procure”. O contato é sempre feito pelo 156 ou ainda pelo telefone (41) 3350-3500.

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Sobre o autor

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Lucas Sarzi

Jornalista formado pelo UniBrasil.

(41) 9683-9504