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Cabral

Nenhuma a menos!

Maria Luiza Piccoli

Se coloca no seu lugar”. “Você não apita nada nessa casa, nem trabalho você tem”. “Vou tirar tudo de você, até os filhos”. Frases reais, ditas por agressores do sexo masculino às suas vítimas – todas mulheres. Mesmo num momento histórico no qual as vozes femininas falam cada vez mais alto e a consciência a respeito da violência contra mulher está no foco dos holofotes, milhares de vítimas ainda sofrem em silêncio, suportando caladas a humilhação e repetindo para si mesmas, diariamente, a mesma pergunta: “até quando”?

Há 7 meses, Ana* (nome fictício) vive escondida do ex-marido em um apartamento alugado numa cidade do interior do estado. Aos 40, a empresária luta para reconstruir a vida depois de 20 anos de abusos e agressões constantes por parte do ex-companheiro com quem tem dois filhos. O que começou como um relacionamento apaixonado, virou um pesadelo­ recheado de episódios de violência física, verbal e psicológica. “No namoro ele era carinhoso mas muito ciumento. Invocava com meus amigos e qualquer um que se aproximasse de mim. Logo me afastei das convivências saudáveis e ele virou meu mundo. Um dia, durante uma discussão, ele me bateu no rosto e se demonstrou arrependido logo em seguida. Chorei muito mas perdoei. Eu o amava acima de tudo e não conseguia imaginar minha vida sem ele”, lembra.

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Diante dos constantes pedidos de desculpas e promessas de que os “destemperos” jamais voltariam a acontecer, Ana* se casou com aquele que considerava ser o homem da sua vida. “Eu pensava que se nos casássemos aquilo iria passar. Mal sabia que estava dando o primeiro passo para a minha estadia no inferno”, diz. No casamento, o que já era grave ficou ainda pior. A proibição da convivência social, o confisco do celular e o impedimento de qualquer acesso às redes, são apenas alguns dos abusos sofridos por Ana* ao longo dos anos de matrimônio. Tapas, chutes e xingamentos aconteciam com frequência e acostumada à violência, ela se tornou passiva àquilo que considerava ser o seu destino. “Me lembro de conversar com minha filha e dizer que aquilo era o que a vida tinha reservado pra mim”, conta.

Foto: Felipe Rosa.
Foto: Felipe Rosa.

O “basta” aconteceu em meados de junho do ano passado, numa noite na qual Ana* acordou assustada numa maca de hospital. “Lembro de acordar toda urinada e muito ferida. Ele me bateu até eu ficar inconsciente e ainda mentiu para os médicos, dizendo que eu tinha apanhado na rua. Essa noite foi meu ‘ponto final’”, afirma. A demora em reconhecer a necessidade de ajuda e acabar de vez com o relacionamento tem muitas justificativas. “Pensava primeiro nos meus filhos. Depois em mim mesma. Me achava inferior e incapaz de viver sem ele. Para mim não existia vida fora daquilo e eu sentia que dependia totalmente dele para tudo”, lembra. Infelizmente, situações como a de Ana* são mais comuns do que imagina. Quem explica é a coordenadora geral da Casa da Mulher Brasileira de Curitiba, Sandra Praddo. “Muitas mulheres esperam a situação chegar ao extremo para buscar ajuda. Cada uma tem um limite e um tempo diferente. O que pra algumas é inadmissível, outras vão deixando passar em nome do relacionamento. O problema é que só se dão conta da gravidade situação quando já estão muito machucadas”, afirma.

Os dados oficiais relativos à violência contra a mulher assustam. Mesmo com o respaldo de leis como a “Maria da Penha” e a “Lei do Feminicídio”, o número de vítimas no Brasil é um dos maiores do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), somos o quinto país que mais registra casos de feminicídios. Dados levantados pelos ministérios públicos estaduais, entre março de 2016 e março de 2017, apenas confirmam a triste realidade. Ao todo, segundo os órgãos oficiais, oito mulheres morrem por dia, em decorrência do crime no Brasil. Quando se fala em agressão ­ física ou verbal ­ o cálculo pode ser feito em segundos – literalmente. Um, dois e pronto ­ outra mulher acaba de ser agredida em algum lugar do território nacional. A marcação é feita pelos “Relógios da Violência”, do Instituto Maria da Penha, que também registram em números, as perseguições, ameaças, espancamentos, estrangulamentos, assédios e outras situações envolvendo mulheres, a cada minuto no país.

A questão chama a atenção de entidades públicas e autoridades, e além da elaboração de novas leis protetivas, soluções como a criação de delegacias e espaços reservados exclusivamente ao atendimento de vítimas do sexo feminino, têm ajudado muitas mulheres a reconstruir a vida. Um exemplo é a Casa da Mulher Brasileira de Curitiba, no bairro Cabral. O espaço oferece atendimento humanizado às vítimas em situação de violência doméstica. Administrado pela Prefeitura, o espaço é um dos eixos do programa Viver sem Violência, coordenado pela Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República.

Terceira unidade em funcionamento no Brasil, a sede de Curitiba funciona desde junho de 2016 e viabiliza o acesso a medidas de enfrentamento da violência e oferece serviços especializados como apoio psicossocial, delegacia, juizado, Ministério Público, Defensoria Pública e promoção de autonomia econômica. “A ideia é oferecer às mulheres em qualquer situação de violência, todo o apoio no sentido de resgatar a autoestima, autonomia e cidadania”, afirma Sandra Praddo, coordenadora geral da unidade.

Foto: Felipe Rosa.
Foto: Felipe Rosa.

Com uma equipe de 65 profissionais incluindo psicólogos, advogados, motoristas e agentes da Guarda Municipal, a casa oferece atendimento 24h. Entre os serviços mais procurados estão a emissão de medidas protetivas que impeçam a aproximação física dos agressores e registro de Boletim de Ocorrência. Em alguns casos, a “Patrulha Maria da Penha”, realizada por equipes especializadas da Guarda Municipal, garante que as medidas protetivas estão sendo aplicadas por meio de visitas periódicas às residências. “Os policiais são treinados para atender esses casos, nos quais verificam se o agressor está respeitando a medida, no sentido de não se aproximar ou não frequentar o mesmo local que a vítima. Caso haja descumprimento, a prisão é efetuada”, explica Sandra.

Somente no ano passado a entidade registrou quase 12 mil atendimentos ­ entre eles o caso de Ana*. Mais que um local de acolhimento, para ela, a Casa de Mulher Brasileira representou a chance de começar tudo novamente, livre da tirania do ex-marido. “Foi o primeiro lugar onde me senti abraçada. Me deram vez, voz e ofereceram o apoio psicológico e legal que eu necessitava naquele momento”, conta. Longe dos fantasmas do passado ela, aos poucos, retoma o controle da vida. O próximo passo é retornar ao mercado de trabalho ­ do qual se afastou também por conta do relacionamento abusivo. “Aprendi que a vida nos dá novas chances e que a gente é muito mais forte do que imagina. Quem acha que vai morrer sem o companheiro agressor precisa acordar e perceber que na verdade, a vida só começa depois que eles vão embora”, finaliza.

Resgate da vida profissional

Uma iniciativa conjunta entre a Casa da Mulher Brasileira, o Setor de Autonomia Econômica da Fundação de Ação Social (FAS/Trabalho) e o grupo Mulheres do Brasil, encaminha vítimas atendidas pelo serviço para concorrer a vagas disponíveis em diversos segmentos do mercado.  O programa de 9 semanas promove também a capacitação profissional e orientação comportamental para entrevistas de emprego, por exemplo. No ano passado, 230 mulheres passaram pelo Setor de Autonomia, e delas, 3 já se recolocaram no mercado de trabalho. “A ideia é promover o resgate da independência total da mulher, também por meio da empregabilidade”, explica Sandra.

Foto: Felipe Rosa.
Foto: Felipe Rosa.

Como identificar um relacionamento abusivo?

De acordo com a mestre em psicologia social comunitária e membro do Núcleo de Diversidade de Gênero e Sexualidade do Conselho Regional de Psicologia do Paraná, Roberta Baccarin, alguns sinais, simples de identificar, podem indicar que o relacionamento se tornou, ou tende a se tornar abusivo. Nesses casos, segundo a especialista, o melhor é buscar ajuda profissional, ou pensar se não é o momento de dar fim à relação.

Segundo Roberta, em relacionamentos que esses e outros sinais se tornam comuns, a espiral da violência pode evoluir. “Normalmente os abusos começam discretos. Mais simples e menos visíveis. Um dia ele discute, no outro eleva a voz, depois ofende.

Até o dia que ele a segura com força ou chacoalha durante uma discussão, por exemplo. Por isso é importante que a mulher esteja atenta e avalie a situação. Será que vale a pena levar adiante?”, alerta.

Como ajudar uma mulher que sofre com um relacionamento abusivo?

De acordo com Roberta, esse é um dos pontos mais importantes a ser discutido em âmbito social. “No Brasil temos essa cultura de que ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher’. Tem que meter a colher sim. Enquanto mulheres temos que estar atentas aos relacionamentos das nossas amigas para podermos aconselhá-las. Devemos incentivar as mulheres a se perceberem em relacionamentos abusivos e conscientizá-las de que existe amparo pessoal e social”, diz.

A psicóloga alerta também para o comportamento virtual. “Na internet as pessoas se sentem protegidas pelo fato de não estarem ‘cara a cara’. Por isso, se acham livres para disseminar piadas e comentários de cunho machista. Isso tem que ter resposta. Tem que chamar a atenção sim”, ressalta.

Como identificar um feminicida?

Via de regra, comportamentos excessivamente machistas são um indicativo de que o homem apresente, também, traços de violência. Nem sempre é fácil, porém, identificar um feminicidade de primeira. Segundo a psicóloga, homens violentos nem sempre apresentam um comportamento agressivo socialmente. “Muitas vezes eles se apresentam como pessoas amorosas com os que os cercam, mas no relacionamento, performam a violência de gênero. Não se pode generalizar”, alerta.

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Maria Luiza Piccoli

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