Você está com todos os documentos, já conferiu umas dez vezes para garantir que está tudo certo. Viajou muitas e muitas horas de carro para chegar nesse ponto. Nesse exato momento. Você está feliz. É a primeira vez que você irá conhecer outro país. Os pensamentos agitados ‘’isso vai acontecer mesmo.. eu vou para o estrangeiro.. e vou finalmente poder comprar aquele videogame de última geração, bem mais barato que no Brasil’’ Mas assim que você cruza a fronteira.. é parado pela polícia.

A língua não era para ser tão complicada, mas você fica surpreso por não estar entendendo absolutamente nada do que os policiais estão falando entre eles. Já está confuso. A surpresa é maior quando o motorista começa a falar esse mesmo idioma, fazendo com que os policiais fiquem mais agitados.

Após 2 horas, sem ao menos ter podido sair do carro, você é direcionado a voltar para o Brasil. Vê aquele perfume que sua mãe pediu ficando só na imaginação. O videogame então, vai ter que esperar mais alguns bons anos para ter condições de comprá-lo.

Um leitor desatento e que não conhece muito bem as nossas fronteiras pode estar pensando ‘’caramba, os Estados Unidos é complicado mesmo hem’’. Mas não meu amigo, isso tudo aconteceu comigo no Paraguai. Sim, a primeira vez que saí do Brasil foi para conhecer o Paraguai, e bem, pela introdução você percebeu que essa visita levou apenas 2 horas, sem direito a nem sequer caminhar pela rua.

Esse episódio aconteceu há muitos anos, muita coisa pode ter mudado por lá, mas vale a pena eu te dar essa dica para que fique esperto caso aconteça algo parecido.

Eu estava passando férias com meus pais em uma praia de Florianópolis. Estavam também por lá alguns amigos dos meus pais. Um certo dia, três desses amigos disseram que iriam visitar Foz do Iguaçu, pois queriam conhecer as Cataratas. Uma viagem de 2 dias. Iriam, visitariam e voltariam no dia seguinte.

Eu, com 14 anos, acreditei que visitar as Cataratas do Iguaçu era uma motivação suficiente para homens viajarem sozinhos quase dois mil quilômetros de carro. Não sabia que, digamos.. cruzar uma fronteira, pular uma cerca imaginária, era na verdade a única coisa que fazia alguns homens enfrentarem uma viagem dessas.

Enfim, eu quis ir junto, pois seria a minha chance de conhecer outro país. Fui.
Após quase 15 horas de viagem, chegamos em Foz do Iguaçu e fomos direto atravessar para o Paraguai. E aqui, finalmente, acontece a minha história. Assim que cruzamos a fronteira, alguns policiais sinalizaram para encostarmos o carro em um posto policial, logo após a Ponte da Amizade. Pediram os documentos do carro e de todos os ocupantes e começaram a falar entre eles no idioma também oficial do Paraguai, o Guarani.

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Se você, assim como eu, até então imaginava que eles falam apenas Espanhol, se enganou. É até mais comum que conversem em Guarani. Acontece que o amigo do meu pai que estava dirigindo, é neto de paraguaios e fala Guarani fluente. Começou a traduzir para nós o que os policiais estavam dizendo: ‘’seguinte.. eles estão discutindo a melhor maneira de nos oferecer um dinheiro no carro e nos dizer para voltarmos a pé para o Brasil’’. O dono do carro, que estava no banco do carona, começou a ficar preocupado. Foi então que o que estava dirigindo saiu do carro e começou a falar em Guarani com os policiais, que ficaram assustados.

Resumo da ópera, os policiais queriam nos dar alguns mil dólares pelo carro e nos disseram que ao voltar para o Brasil era só ligar para o seguro e dizer que o carro havia sido roubado no Paraguai. Uma proposta irrecusável, segundo eles mesmos.

Não aceitamos e nos mantiveram por 2 horas sem poder sair do lugar. Para ‘’pensarmos sobre o assunto’’. Ao final desse tempo, ao perceber que não teria trato, nos expulsaram do Paraguai. Pararam o trânsito que vinha da ponte na fronteira e, por onde entramos, estávamos saindo. Sem eu ter tido nem sequer a possibilidade de pisar em solo Paraguaio.

Fomos para um hotel, onde os três se arrumaram e saíram para o verdadeiro objetivo da viagem, que soa até como uma ironia após o ocorrido: pagar para atravessar uma fronteira imaginária. E julgando pela felicidade deles no outro dia, o objetivo foi cumprido. Mas mesmo assim, fica aqui a dica meus amigos: ao pular a cerca, tenha toda a atenção do mundo com a Polícia.