Os desportistas do passado tiveram oportunidade de presenciar, aos domingos, nos diversos campinhos de várzea, animados festivais esportivos que começavam com alvorada festiva às 6h e só terminaram ao anoitecer. Tomamos a liberdade de transcrever um conto de nosso amigo Zito Alves, que lembra com detalhes o que foram aqueles espetáculos que não saem de nossa lembrança:
“Bom dia, senhoras e senhores. Neste exato momento, o serviço de alto-falantes Estrela Azul inicia suas transmissões, diretamente do estádio do Botafogo FC, aqui no lindo bairro das Mercês. E, para gáudio de nossos ouvintes, dedicamos aos ilustres moradores a linda valsa “Danúbio Azul”. Assim, aí pelos anos 40, e sempre aos domingos, mais um animado festival de várzea se iniciava.
O falante (locutor) ainda anunciava que haveria roda da fortuna, pesca milagrosa e um suculento churrasco, assado pelas mãos milagrosas do mestre Zico. O “estádio” em questão era naquele tempo um terreno baldio, entre as ruas Júlia Wanderley e Isaías Bevilaqua. Possuía as cidadelas, mas não exibia um mísero pé de grama. Não bastassem as crateras e outros acidentes do terreno, havia nos cem metros do campo um desnível de mais de cinco metros entre as duas ruas. Assim, em dias de jogo, a partida era ganha na escolha do campo. Quem ganhava o cara-coroa escolhia atacar primeiro tempo para cima, e no segundo, jogar toda força para baixo, que aí, todos os santos ajudam.
Nesse domingo, quando o possante serviço de alto-falantes anunciava mais uma dedicatória, em que “alguém” de paletó xadrez dedica a “alguém” de vestido azul a bonita página musical “Saudades do Matão”, entravam em campo as equipes adversárias.
Escolha na moeda, lá vai o goleirão subindo a rampa, rumo à Rua Júlia. A peleja vai sendo levada por um juiz, desses heróis sempre à disposição, que já traziam o apito de casa. Fim do primeiro tempo. Como sempre, o time que vinha de cima havia marcado um gol, contra nenhum do debaixo. Virando o campo, aí pelos 40 minutos, o agora de cima empata a peleja. Últimos momentos da partida. Na pequena área, em baixo claro, já se amontoavam os dois times, numa feroz disputa pelo desempate, ante a heróica resistência do atacado encolhido em seu campo. De repente, quase no “apagar das luzes” do espetáculo, um bolão rebatido sobe, sobe e sobe… para daí cair lentamente sobre a cidadela dos atacados. Duas dezenas de pares de olhos, amontoados na pequena área, acompanham o trajeto da bola. E acontece, é claro, enquanto os marmanjos se embolam, no pó e nas malhas da rede, arranhando-se nas espinheiras-santas no fundo do gol, a bola finalmente desce, quica no chão e… entrou ou não entrou? Houve ou não houve o gol? Ninguém viu se e como a bola entrou. Mesmo um garoto que ali ficava à guisa de fiscal de linha soube explicar com segurança esse importante e definitivo detalhe.
Sua excelência, o juiz chamado para resolver o impasse, ficou como Salomão diante da Rainha de Sabá, duro, porém frio. Silêncio absoluto, até o locutor esqueceu de trocar o disco. Aí o árbitro sentenciou: Não houve gol! E deu suas razões. Houve falta coletiva, e de mais a mais, o tempo de jogo havia se esgotado. Pegou a bola, guardou o apito no bolso e foi saindo de fininho, milagrosamente vivo, sem ser contestado por ninguém. Melhor um empate, devem ter pensado os dois lados.
No serviço de alto-falantes, o menino João dedica à sua namorada Etelvina, com os abraços e beijos do pai Chico, a maravilhosa canção “Coração Materno” na voz do grande tenor Vicente Celestino. Agradecemos ao Zito pelo trabalho que nos faz lembrar as coisas boas de antigamente.