Todo parto promove um momento único na vida da mulher. Muitas pessoas não entendem como um momento de tanta dor pode ser tão mágico. Mas só passando por isto para entender, quantas emoções intensas. Eu sou mãe de dois. Minha Dani, que já está com seis anos, nasceu de cesárea. Meu Daniel, que acabou de fazer dois anos, veio de parto normal. Tendo passado pelas duas experiências, eu digo com propriedade: sem dúvida nenhuma eu passaria novamente pelo parto se engravidasse de novo. Pena que já “fechei a fábrica”.

E eu sou a prova de que é possível sim um parto após cesárea (mamães, não se deixem enganar pelo papo do médico de que isso não é possível). Respeitando um intervalo mínimo de um ano (ou dois anos, para alguns médicos), para que o útero cicatrize do corte, o parto é perfeitamente possível. Não sou a “louca do parto”, “natureba” radical, de que o parto tem que ser feito a qualquer custo. Penso que a cesárea está aí para salvar vidas, quando alguma intercorrência acontece, seja ela biológica ou psicológica. Mas defendo que, pelo menos, a mulher entre em trabalho de parto, mesmo que isso termine em cesárea.

O que eu não concordo são as cesárea eletivas, com “horário agendado”, quando a mãe tem condições de um parto e quer uma cirurgia só porque o médico disse que está na hora, ou porque ela quer estar depilada, com as unhas feitas e maquiada no nascimento, para a equipe fotográfica estar preparada para registrar tudo. Quem determina a hora é o bebê, não a agenda do médico ou a equipe fotográfica. E no meu ponto de vista, o nascimento de um bebê tem que ser um momento íntimo da família, não um acontecimento “cinematográfico”.

Minha escolha

Bem, como a Ana e a Paula deram seus relatos de parto, também vou seguir nesta linha e contar o nascimento do meu Daniel. A cesárea da Dani, que também teve seus momentos lindos, contarei em outro momento. Bem, e não dá pra colocar tanta emoção assim no papel sem escrever textão né! Quem não tiver paciência de ler, desculpe. Mas quem tiver a fim de embarcar na partolância, apertem os cintos. O bebê nasceu!

A data prevista do meu parto, em todos os exames, apontava 21 de setembro. E fiquei imensamente feliz com isto, por ser o dia do aniversário do meu avô, Henrique Matheus, pessoa que amei demais. Tanto que eu gostaria que meu bebê se chamasse Matheus, em homenagem ao bisavô. Mas, em outro momento, conto porque ele acabou chamando-se Daniel. Um exame de urgência naquele domingo, 20 de setembro, parecia colocar por terra meus planos. Havia um pequeno problema na circulação sanguínea do cordão umbilical. Mas algo muito discreto, “grau 1”, que não estava colocando em risco ainda a vida do meu bebê. E o médico nos explicou que se aquele risco chegasse em “grau 3” (não me recordo de forma técnica a explicação), aí sim teríamos que correr para uma cesárea.

Saí do hospital um tanto preocupada. Queria tanto que Daniel nascesse no aniversário do avô, rezei muito por isso, mas eu não tinha nada de dilatação ou contração, às 22h aquele domingo, quando eu havia acabado de completar 40 semanas. Terminei as lembrancinhas, que ainda tinham uns detalhes a terminar, e fui dormir.

Supresa!

Às 6h do dia 21 de setembro, senti uma dorzinha incômoda. Mas eu estava com tanto sono, que não dei bola. Achei que era só o peso a barriga, que já não dava mais jeito na cama. Dormi. Mas às 8h, acordei com uma sensação diferente, umas “fisgadas” no útero. Pontualmente às 8h, escutei um “barulhinho” na minha barriga. Levantei com vontade de ir ao banheiro, como todas as manhãs. Mas desta vez, não consegui segurar o “xixi”. Saí “vazando” pelo caminho. Esvaziei a bexiga, mas eu não parava de “vazar”. Então a ficha caiu de que aquele líquido não era xixi e de que o “barulhinho” que ouvi era da bolsa rompendo. É um tema “polêmico”, pois muitas mulheres escutam o barulho da bolsa rompendo. Eu mesma não acreditava nisso e achava que as “loucas do parto” estavam “viajando na maionese”. Mas é verdade, eu escutei o barulho da bolsa fazendo um “krrrr”. Parece o barulho de uma membrana rompendo.

Eu já sabia o que estava por vir. Como meu marido e eu fizemos um curso de parto (Tifany, cada informação foi muito valiosa, obrigada! Tamara, obrigada por toda a preparação durante a gestação), eu já sabia o que aconteceria dali por diante. Muito calmamente limpei a sujeira do chão, me limpei e deitei na cama. Fiquei alguns minutos ali curtindo cada contração, até que às 9h, resolvi acordar meu marido. “Dan …. a bolsa rompeu”. Ele abriu os olhos assustado, mas como também estava ciente de cada passo, nos abraçamos e ficamos ali, curtindo aquele momento juntos, por uma hora, deixando rolar a ocitocina, com sorrisos nos rostos. Foi um momento lindo demais. Às 10h, nossa Dani acordou, a abraçamos por alguns instantes e revolvemos ligar para o médico. Não falamos a ela o que estava acontecendo, mas ela sentiu a energia.

Naquele momento, ficamos com receio de contar à família que eu estava em trabalho de parto, pois temia que agitação demais atrapalhasse o andamento. Afinal, minhas contrações ainda estavam irregulares. Inventamos uma “mentirinha” aos avós, pedindo que viessem buscar a Dani, para que eu fosse fazer uma ecografia solicitada pelo médico. Sinceramente, me arrependo de ter escondido. Acho que seria mais divertido tê-los por perto. Meus pais chegaram e eu corri para o chuveiro, para que não desconfiassem. Fiquei lá um bom tempo debaixo da água quente, curtindo, o que ajudou a colocar ritmo nas contrações. Minha mãe, claro, mesmo não me vendo, desconfiou. Mas não falou nada. E eles foram embora com a Dani, dar almoço e leva-la para a escola.

Enquanto arrumávamos alguns detalhes finais para a maternidade, de 10 em 10 minutos lá estava eu, escorada no balcão da cozinha para aguentar a dor, que já estava moderada, e contando o tempo de cada contração em um aplicativo no celular. O aplicativo me ajudou muito a entender o ritmo das contrações e saber se estava ou não mais próxima de pegar meu Daniel no colo.

Violência obstétrica

E lá fomos nós para a maternidade. Aí vem a parte ruim da minha experiência. Para ser internada, era necessário passar pela avaliação de um plantonista. E para meu azar, peguei um obstetra muito grosso, cavalo, sem paciência alguma, que ao fazer o exame de toque, enfiou os dedos com tanta força dentro de mim, que parecia que o braço ia entrar junto. Pulei da maca e meu marido pulou da cadeira, com o berro e a cara de dor que fiz. Muito “cavalamente” ele mexeu os dedos de um lado a outro e eu sentindo um enorme desconforto. Até cólica senti. Disse que eu não tinha nenhuma dilatação. Mas é claro! Se eu tinha alguma dilatação, ela regrediu ali com aquele exame violento e desnecessário!

Aí foi meu erro. Ao invés de chamar minha doula, achei que era melhor passar antes no hospital, para ver como eu estava, para depois seguir para o estúdio dela. Mas, uma vez internada, não seria mais possível sair dali. E aos poucos meu marido começou a se comunicar com ela pelo celular e ela acabou nos doulando virtualmente. Meu marido ia seguindo as orientações dela. Eu ainda tinha esperança de que meu médico ia me avaliar, eu sair dali para ir ao estúdio e voltar para a maternidade só na hora do expulsivo. Mas as coisas não funcionaram assim.

Enfermeiras assustadas

Já no quarto, decidi andar pelos corredores, pois a atividade física ajudaria. Com a orientação da doula, toda vez que as contrações vinham, eu me agachava, para ajudar na dilatação e “encaixe” do bebê. E com o celular na mão, ficava lá marcando o tempo de cada contração. Mas cada vez que eu me agachava naquele corredor, era uma correria. Se não eram as enfermeiras, achando que eu já estava parindo, eram visitantes correndo chamando as enfermeiras. E eu pacientemente explicava a cada um que não era a hora ainda e eu estava apenas estimulando a dilatação.

Andei até umas 17h. Corredores, rampas … já estava exausta e resolvi ir pro quarto tomar uma chuveirada. Não sei quanto tempo fiquei lá, mas saí e fui para o sofá. Nesse momento, o mau humor bateu, pois as dores eram fortíssimas e eu estava ansiosa pela chegada do meu obstetra, para me dizer o quanto aquela atividade física toda tinha promovido de dilatação. Meu marido insistia que eu voltasse a andar. Mas eu não aguentava. Queria ficar ali, encolhida no sofá, de cansaço.

Falamos para o obstetra seguir “sossegado” com as consultas em seu consultório à tarde e às 18h ele chegou na maternidade. E para minha decepção, eu estava em apenas três de dilatação. Fiquei preocupada, pois as dores já eram insuportáveis. E ele nos orientou a irmos para o centro obstétrico. Nas entrelinhas, eu achei que ia para uma cesárea. Eu nem questionei muito, porque com contrações de três em três minutos já, entrando em parto ativo, eu mal conseguia falar. E é nesse momento que muitas mulheres acabam partindo para a cesárea, porque a dor é realmente insuportável.

Uma das minhas vontades não foi cumprida. Eu queria ir andando até o centro obstétrico (CO), mas as enfermeiras não deixaram. Queriam que eu fosse de cadeira de rodas, mesmo eu insistindo que preferia caminhar. Passando em frente ao berçário, havia uma multidão de casais, pois estava acontecendo uma visita guiada de casais “grávidos” à maternidade. Bem no meio da multidão me veio uma contração. Abaixei a cabeça na cadeira e segurei pra não soltar aquele “gemidão” de dor, pra não assustar os casais.
Eu tinha feito um plano de parto, com tudo que eu queria e não queria. Mas sinceramente, eu confiava no meu médico. Decidi jogar o plano de parto fora e deixar as coisas acontecerem.

Analgesia e mágica

No centro obstétrico, fui direto para a analgesia. Apesar de desejar um parto 100% natural, eu já tinha acordado com o médico que analgesia era um dos recursos possíveis. Mas, até este momento, eu achava que o médico estava me conduzindo para uma cesárea, da qual eu não desejava. Estava um pouco chateada, mas tentando me conformar.

Um pouco antes da injeção, o médico me examinou novamente e pasmem! Eu já estava com seis de dilatação! Nesta meia hora de preparação, deslocamento do quarto e entrada no CO eu já tinha evoluído mais três centímetros. Não acreditei naquilo e novamente me enchi de alegria e força quando meu médico me disse “ué, você não quer parto? Então vamos lá!”, com um sorriso maroto no canto da boca, que me deixou mais confortada e feliz. Em seguida, a analgesia me ajudou a superar a dor.

Bloqueio psicológico

A Tifany nos ensinou no curso que muitas gestantes não conseguem evoluir no trabalho de parto, por causa de algum bloqueio psicológico. Eu acredito que o meu bloqueio era não ter o obstetra ao meu lado, para dizer como estava sendo essa evolução. Eu idealizava tanto aquele momento do parto, que eu precisava saber como eu estava me saindo. Dito e feito, pois com a chegada do obstetra, eu me sentia mais confiante de saber que eu tinha um profissional de confiança ao meu lado, e aquilo ajudou na dilatação.

Nestes 20 minutos que fiquei na salinha da analgesia, esperando a liberação de uma das salas de parto, pasmem de novo! O médico examinou e disse que eu estava indo muito bem. Chegou ao meu marido e disse: “ela já está com oito.” Eu sempre ouvia dizer que as mulheres geralmente conseguem um centímetro de dilatação por hora, em média. Então não conseguia acreditar que eu estava evoluindo daquela forma, a jato!

Cheguei no CO e todas as salas de partos estavam lotadas. Eu não escutei nenhum grito, pois todos os nascimentos que estavam acontecendo naquela noite eram cesáreas. Seria eu a única “louca do parto”? Entrei às 19h30 numa sala de parto e pasmem mais uma vez! Eu já estava com 10 de dilatação! Em uma hora e meia, evoluí de três para 10.

Sob efeito de analgesia, eu não sentia mais as contrações. Então meu marido foi minha doula, minha peça chave para o parto. Sob orientação do obstetra, a cada vez que ele sentia minha barriga ficar dura (era a contração), me orientava a fazer força. E assim ficamos por uma hora e meia de expulsivo, nós três ali naquela sala. Em alguns momentos, o médico nos deixou a sós no CO. Saía tomar seu merecido cafezinho ou uma água, conversar com os colegas, pois tanto ele, quanto nós, estávamos conscientes de cada passo que estava acontecendo. Eu estava na partolândia, já não estava mais “raciocinando” direito.

as foi o suficiente para curtir aqueles momento do meu marido ao meu lado, nós nos olhando, ele acariciando minha barriga. Uma cumplicidade sem fim. E cada vez que o útero endurecia, ele segurava minha mão e eu fazia força. Pura mágica! Tentei deitada, de cócoras, em pé apoiada na cama. Mas deitada foi o jeito que melhor consegui fazer força.

Meu marido ficava assustado, pois disse que via os cabelinhos do nosso Daniel saindo, coroando, e o médico não estava na sala em alguns momentos. Eu e o médico sabíamos que estava tudo bem. Mas meu marido se desesperou com a possibilidade daquela criança nascer nas mãos dele e ele não saber o que fazer. Mas, manteve a aparência de calmo e vinha a todo instante me dizer. “Achei que ia nascer, porque quando você fez força os cabelinhos apareceram”. Dante, sua cara nestes momentos era linda! Pura emoção e magia. E eu ia adorar que o Daniel tivesse nascido nas suas mãos.

Susto

Depois de uma hora e meia de parto ativo, as contrações começaram a se tornar mais espaçadas, regredindo. Eu estava muito cansada e a analgesia já estava passando o efeito. Neste momento, creio que eram 21h, o médico me aplicou ocitocina e iniciou uma correria no CO. A sala encheu-se de enfermeiros e outros profissionais, colocando material cirúrgico nas mesas. Caso fosse necessária uma cirurgia, já estavam todos ali. E por sorte, eu tinha uma equipe TOP de apoio, os profissionais mais conceituados de Curitiba naquela sala.

A ocitocina fez efeito e logo as contrações voltaram com todo ritmo, muito fortes. Neste momento, eu já estava quase sem a analgesia. Não me lembro bem. Mas acho que foram três forças. Em cada uma delas, meu marido disse que via a cabeça do Daniel quase saindo. Na terceira, a cabeça saiu, o médico conseguiu segurá-la aos poucos e, mais uma força, Daniel veio totalmente ao mundo. Exatamente às 21h31. Foram 13 horas e meia de trabalho de parto. Nesse momento, eu estava me recuperando do esforço (a dor acabou imediatamente) e não consegui pedir que o médico esperasse o cordão umbilical parar de pulsar. Logo Daniel veio para o meu colo, lindo, saudável. Não pegou meu seio logo no primeiro instante. Então ficamos ali curtindo a emoção de ver aquele rostinho.

E dali por diante, nossa ligação é muito forte, mágica. A coisa mais deliciosa do mundo é ter minha família perto. Dante, Danielle, Daniel e Slash (sim, o cachorro), vocês são minha razão de viver!