Aceitando uma provocação da Giselle, nossa parceira aqui no blog, que sugeriu que começássemos as publicações deste blog com um relato de parto, estou eu aqui, um ano e quatro meses depois, relembrando todos os detalhes do nascimento do Davi. E fico feliz por ter um relato de parto inesquecível e emocionante para contar. Então, senta que lá vem textão! Porque não tem como fazer um relato de parto sucinto por se tratar de um momento tão intenso e transformador.

Bom, eram 9h do dia 5 de julho de 2016, exatamente no dia em que completávamos 39 semanas de gestação,  quando senti o primeiro sinal de que o nosso Davizinho de fato chegando. Ainda durante a gravidez, tinha decidido que queria tentar o parto normal devido aos inúmeros benefícios para mim e para o próprio Davi. Desta forma, era ele mesmo quem escolheria o momento de seu nascimento, nem que para isso eu tivesse que enfrentar um dos meus maiores medos: a dor do parto. Mas aquela primeira contração, às 9h, ainda era o começo de uma longa jornada que duraria quase 18 horas.

No começo, era apenas uma dorzinha de nada, como uma cólica menstrual, exatamente como minha obstetra tinha indicado. Assim, aguentei até às 10h30 para acordar o Euclides e dizer: “Acho que o Davi está querendo nascer”. Mas eu mesma não tinha certeza. Como mãe de primeira viagem, eu não sabia dizer se aquilo era de fato um início de trabalho de parto ou apenas mais uma contração de treinamento, um alarme falso. Sendo assim, decidimos tentar ter um dia normal, apesar de o Euclides decidir trabalhar em casa para ficar comigo.

Durante a tarde, cheguei até a receber visitas em casa! Enquanto recebia minha tia e minha prima para um café da tarde, tentei fingir que nada demais estava acontecendo, mas, na verdade, a dor só piorava, ficando cada vez mais intensa e frequente. Assim, logo que elas foram embora, fui perguntar ao Euclides quanto tempo ele ainda demoraria para terminar o trabalho porque eu já não sabia mais quanto tempo aguentaria em casa. Como não tinha contratado doula, queria ir para o hospital para saber como estava o andamento do processo.

Mesmo recebendo o ok da minha obstetra para ir ao hospital, ainda tive que esperar um pouco porque o Euclides queria tomar banho antes de sair. E só então, partimos, deixando minha mãe mais apreensiva do que nunca – como não sabíamos exatamente como estava o andamento do trabalho de parto e eu poderia ter somente um acompanhante, combinamos que só chamaríamos ela para nos encontrar quando tivéssemos certeza de que o Davi estava a caminho.

A decepção inicial

Davi nasceu pequeninho, às 2h45 do dia 6 de julho de 2016. Foto: Arquivo pessoal
Davi nasceu pequeninho, às 2h45 do dia 6 de julho de 2016. Foto: Arquivo pessoal

Assim, cerca de 19h (10h depois do início de tudo), demos entrada no hospital, sendo atendida por minha própria obstetra, que já estava lá fazendo outro parto. E imaginem qual não foi a minha decepção quando ela me disse que ainda estava com 3 de dilatação, apesar de toda a dor que já estava sentindo! Como ainda era muito pouco e não dava para saber se a dilatação ia evoluir, por recomendação dela, fomos dar uma volta na quadra, retornando uma hora depois. E aí veio a boa notícia: a dilatação tinha aumentado para 4! Então, ao que tudo indicava, eu estava mesmo em trabalho de parto e o Davi deveria nascer dali a seis horas se tudo corresse normalmente.

E, nisso, eu não tenho do que reclamar. A dilatação foi evoluindo exatamente um por hora, bem na média. O problema é que a dor era cada vez mais forte e eu não sabia se teria forças para aguentar mais seis horas daquele jeito. E eu, que já não sou uma pessoa tranquila e paciente, fui ficando ainda mais nervosa quando soube que não havia quarto disponível para mim no hospital. Sendo assim, teria que esperar até que uma acomodação fosse liberada para poder ser internada. No corredor do hospital. A espera foi de duas horas, até que a chefe da Enfermagem se solidarizou com a minha situação e decidiu liberar uma acomodação superior para mim.

Finalmente no quarto, entrei no chuveiro, pois sabia que a água quente podia ajudar a aliviar as dores. Não sei quanto tempo fiquei lá. Só sei que quando a médica voltou para me avaliar, a pedido do Euclides, eu estava com 6 de dilatação. Ainda era relativamente pouco, mas não sabia se aguentaria esperar mais e pedi: “Me dá analgesia, por favor!”. Eu sei que muita gente é contra o uso da analgesia, mas eu já tinha conversado com a minha obstetra anteriormente e definido que, se eu sentisse necessidade, faríamos uso desse recurso, sim! E eu tenho certeza que foi só com essa “mãozinha” que eu consegui chegar ao final desse processo tão dolorido da forma como eu queria: em um parto normal saudável pra mim e pro Davi.

O efeito da analgesia

A analgesia, no entanto, só veio quando já estava com 8 de dilatação, pois a anestesista de plantão estava em uma cesárea quando cheguei ao centro obstétrico. A partir daí, a experiência do parto ficou um pouco mais agradável. Continuava sentindo as contrações, mas a dor não. Foi um momento de muita intimidade entre mim e o Euclides, que estava do meu lado o tempo todo. O alívio da dor e o apoio dele foram essenciais para eu conseguir ir até o final.

É claro que a analgesia não impediu que eu ainda sentisse um pouco de dor, principalmente no expulsivo, mas foi suficiente para que eu pudesse aguentar até o final e conseguir ter essa experiência mágica do parto normal. E foi assim que o Davi nasceu, às 2h45 do dia seguinte, 6 de julho de 2016, pequeninho, mas já muito amado. Hoje em dia, relembrando tudo o que aconteceu naquela madrugada, vejo que algumas coisas poderiam ter sido melhores. A posição do parto, por exemplo, poderia ter sido diferente para facilitar o expulsivo. Mas, ainda assim, foi o que consegui naquele momento. E me orgulho de tudo porque posso dizer: “Eu consegui!”. Ah, para quem está se perguntando sobre rompimento da bolsa, no meu caso, isso não aconteceu. A bolsa foi rompida pela própria obstetra pouco antes do expulsivo.

Na saída da maternidade, nasce uma família (cansada, mas feliz). Foto: Arquivo pessoal
Na saída da maternidade, nasce uma família (cansada, mas feliz). Foto: Arquivo pessoal

E, como nem tudo na vida é sofrimento, a parte engraçada foi ver a reação da minha obstetra ao constatar que o Davi era tão carequinha quanto o pai, ainda no momento do parto. Desde então, isso é o que eu mais ouço: “Nossa, como ele é a cara do Euclides!”. E quer saber? Eu sinto o maior orgulho de ver um reflexo do Euclides do nosso filho e espero que isso não se restrinja à questão física, mas que o Davi também seja um homem íntegro, honesto e maravilhoso como o papai. Aliás, se antes eu já admirava o Euclides por tudo isso, agora a admiração é ainda maior!

*Atualização: Em uma publicação no Facebook, fui questionada a respeito da possibilidade de a analgesia dificultar o expulsivo, principal argumento contrário ao uso desse método, inclusive. E minha resposta foi a seguinte: “Eu acho que o expulsivo deve ser difícil de qualquer maneira porque requer uma força que você não está acostumada a empregar. A analgesia não impossibilita essa força, mas talvez ela não estivesse na maior potência possível também. Mas, sem a analgesia, eu não sei se conseguiria chegar até lá, não sei se conseguiria ter alguma força, pois acho que já estaria exausta por causa da dor”. Além disso, é bom lembrar a importância de ter uma boa equipe ao seu lado durante todo o processo do parto. A escolha do hospital onde o Davi nasceria, inclusive, levou em consideração uma informação primordial apresentada pela minha obstetra ainda durante o prá-natal, que esse hospital em questão tinha uma equipe mais bem preparada para analgesia de parto do que os demais nos quais ela atendia.