Uma panela de pressão chamada condomínio

O condomínio em que mora Aldemir tem mais gente que muitas pequenas cidades do interior. Um amigo de Aldemir disse com certo rigor estatístico que se o pessoal do conjunto de edifícios fosse unido, podia eleger um vereador nas próximas eleições municipais: ‘São cinco mil pessoas‘. Estatisticamente correto, mas humanamente errado: ‘O pessoal aqui não olha na cara um do outro, quanto mais votar em alguém que acha que vai ter mais vantagem que ele‘, observou Aldemir. Para em seguida arrematar: ‘Porque hoje em dia, você sabe, política é uma grande fonte de renda. Se o cara for esperto, fica rico em um mandato‘.

Toda filosofia humanista e solidária foi para o ralo no último comentário. Não bastasse este sentimento tão humano, que é a inveja de o outro se dar bem na política, há também diferenças brutais no esporte. O amigo de Aldemir observou: ‘Se o cara for atleticano, ele não vai votar no candidato coxa. Ou vice-versa. Sem contar que paranista não vota em nenhum dos dois‘. A não ser que o candidato não torça para ninguém. Ou for, por exemplo, palmeirense. Destes malucos que olham para os lados na ciclovia e cantam baixinho, para ninguém ouvir: ‘Quando surge o alviverde imponente no gramado onde a luta o aguarda‘. Mas se for maluco – ou palmeirense – ninguém vai votar por um motivo ou por outro.

Existem outros motivos: se o sujeito for evangélico e o outro for católico. Se o sujeito for heterossexual e o outro homossexual. Se o sujeito for um anão casado com uma loira gostosa. Aldemir conhece um sujeito que ele é um amor de pessoa, mas tem ímpetos homicidas quando vê anão de perna torta com loira bonita. A sorte deste sujeito é que existem poucos anões na cidade e os que estão por aí não andam com loira gostosa. Mas a maior dificuldade para o condomínio de Aldemir juntar todos os votos para eleger um vereador é mesmo o velho sentimento que pode não ser unânime, mas é majoritário: vizinho tem bronca de vizinho. Vizinho tem sempre uma coisa para reclamar do outro.

Aldemir odeia o cara do apartamento de cima. Ele é um alemão casado com uma bela morena de olhar recatado. Até o vestido da mulher é recatado. Ela olha para o chão, nunca no rosto de nenhum outro homem que não seja o marido. Tudo certo, mas como nada é perfeito, ela tem um defeito: na hora do conluio carnal ela faz um barulho danado. ‘Parece incrível que aquela santa vira uma Messalina. Enquanto aquilo não termina, eu não durmo. E, pior, depois que termina, eu também não consigo dormir. Só penso na vizinha do apartamento de cima‘. Aldemir contou que Dinarte, vizinho de baixo, é um sacana. Ele sempre estaciona o carro com metade do veículo na vaga dele e outra metade na vaga de Aldemir. Um dia Aldemir chegou e encontrou o carro estacionado, olhou para os lados, e não teve dúvidas: murchou os quatro pneus do vizinho, levou o seu carro para o estacionamento na frente do condomínio e foi dormir feliz.

Na manhã seguinte, tinha mais dois carros com pneus murchos no estacionamento – e vizinhos de caras amarradas. Dinarte, na dúvida, murchou os pneus dos carros próximos, só de raiva. ‘Agora me diga uma coisa: como você vai dizer para este pessoal que a gente pode ser unido e eleger um vereador?‘. Boa pergunta. Aliás, Dinarte anda olhando para Aldemir com cara de homicida.    

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