Um lugar para ficar verde de raiva

O ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, era corrupto. Mas tocador de obras. E o povo de São Paulo foi tolerante, tolerância traduzida no famoso slogan “Ele rouba mas faz”, que virou sobrenome, como de alguns pugilistas americanos como Joe Louis, “O Bombardeiro de Detroit”. No caso do político brasileiro, era conhecido como Ademar “Rouba Mas faz” de Barros. Isto não impediu Ademar de fazer algumas obras até hoje incompreensíveis, como o famoso “Buraco do Ademar”, passagem de nível subterrânea no Vale do Anhangabaú, que era para ser solução para o problema de trânsito e acabou produzindo enchentes na região, de tal forma que até um barco foi usado em 1985 para salvar pessoas que estavam se afogando. Quanto mais se mexia no “Buraco do Ademar”, mais o bicho ficava feio.

O “Buraco do Ademar”, em São Paulo, se tornou exemplo de obra que apesar de cara, o bom senso condena. Foi gasto dinheiro público para criar um problema e o bom senso determina que não se gasta dinheiro para criar problemas – mas soluções. Outra obra polêmica, também em São Paulo, foi o Elevado Presidente Costa e Silva, construído por Paulo Maluf nos anos 70 e que custou uma fortuna. O “elevado” ficou conhecido como “Minhocão” e ajudou a degradar o centro da cidade. Ele foi chamado de “aberração arquitetônica” e “arquitetura cruel”. O jornal O Estado de S. Paulo disse que a obra não tinha destino definido: “A via elevada não é resposta a nenhuma pesquisa de origem e destino da população”.

Claro que pelo Brasil afora tem outros exemplos de obras inúteis, mal feitas, arquiteturas cruéis, que se tornam inutilidade decorativa depois das primeiras semanas de deslumbramento. Exemplo de dinheiro jogado fora. Estes exemplos do passado vêm à cabeça quando se passa pela parte sul da Linha Verde em Curitiba. Porque quando se espera que se vai estar diante de algo que foi feito para resolver o problema de fluxo naquela parte da cidade, o motorista se depara com uma lentidão inexplicável – afinal, a obra foi feita para o trânsito fluir e não empacar. Um mistério do ponto de vista de investimento público, que é unânime em arrancar reclamações de boa parte dos usuários. O mais fascinante na Linha Verde é que os responsáveis não conseguiram fazer a coisa direito e um monte de leigos aponta defeitos que poderiam ser evitados. Uma verdadeira fuzarca!

Eis algumas das reclamações colhidas de pessoas comuns: o número de pistas deveria ser maior, quatro ou cinco em vez de três, os canteiros são grandes, as laterais – alça de acesso – têm duas vias que viram uma nos entrocamentos, produzindo indesejáveis, irritantes e demorados congestionamentos, o projeto foi mal elaborado porque não tem viadutos, há excesso de semáforos que freiam o fluxo e entopem as pistas, distância entre os trechos para os retornos é longa, para ficar nos principais. O certo é que a Linha Verde, em sua parte sul, deixa qualquer um verde de raiva. E o mais irônico da história é que ela repete o binômio alto-custo resultado medíocre que caracteriza obras de governantes atolados até o pescoço em denúncias de corrupção como o velho Ademar “Rouba Mas Faz” de Barros e o notório Paulo Salim Maluf. Mas o que houve com a Linha Verde só Deus sabe.

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