Todo mundo feliz com a volta do boêmio

Eu levantei ontem de manhã com propósitos bem definidos. Ficar em casa lendo livros que comprei por uma pechincha na banca de saldos da Fnac. É muito agradável ir à Fnac e botar os olhos naquela banca cheia de bons livros a preços módicos. Na realidade, nem devia estar fazendo propaganda para não aumentar a concorrência. Mas a revelação faz parte do assunto de hoje. Então, eu tinha bom motivo para ficar em casa a manhã inteira e também à tarde, porque meu time está na segunda divisão e ganhou sábado, o que deixa o domingo livre para os livros.

Mas minha cachorra tinha outros planos e também outras necessidades e ganiu. Balançou o rabo e do jeito que moveu a traseira, senti que era urgente. Meus planos mudaram. Peguei a cachorra e fui para ciclovia, com o propósito de evitar o parque São Lourenço, que domingo fica uma muvuca danada. Muvuca, aliás, que não posso reclamar, porque parque foi feito para o povo passear. E o povo tem mais é que ser feliz. O parque fica uma feira medieval cheia de gente assando churrasco, crianças correndo de um lado para outro, malucos correndo de skate para lá e para cá.

E como a cachorra não gosta de skate e late, era mais um motivo para evitar o parque. Mas a cachorra, mais uma vez contrariando, tomou rumo do parque. Primeira surpresa: era manhã linda de sol. Sol quente e para atenuar o calor, uma brisa fresca, gostosa. Meu humor mudou para melhor. Segunda surpresa: pouca gente no parque àquela hora. Seria um passeio agradável. Sim. E foi, embora deva registrar que tiraram vários latões verdes, que era onde o frequentador jogava lixo e não colocaram nada no lugar. Eu acredito que vão colocar alguma coisa nova porque não faz sentido tirar latões de lixo do parque, a não ser que seja uma campanha para jogar lixo no lago e na grama, o que parece não ser a intenção.

Mas não vou ser ranzinza, porque a manhã estava bonita e o começo de tarde prometia ser de sol – coisa rara em Curitiba, ainda mais num fim de semana. No parque, mulheres com cachorros e homens com cadelas, e vice-versa. Todos na maior harmonia e tranquilidade. Depois de quase uma hora andando no parque, fazendo pausa para sentar e apreciar o movimento e também apreciar as senhoras e garotas que colocam aquelas roupas colantes, botam fones no ouvido e correm graciosamente fazendo duas coisas fantásticas: queimam calorias para o corpo ficar bonito no verão e mostram a silhueta esbelta para velhos babões como o presente escriba. Claro que também passam gordas arfando como estivessem prestes a ter um enfarte.

Finalmente, eu fui embora. E quando estava saindo do parque, encontrei um senhor que todas as manhãs passeia com um cachorro minúsculo que tem treze anos. ‘Está bem velhinho‘, me confessou ele. Este senhor estava fascinado com a bela manhã. Ele olhava o lago e cantava baixinho, todo feliz: ‘Ele voltou, o boêmio voltou novamente…‘. Eu olhei e perguntei: ‘Tudo bem, senhor?‘. Ele respondeu: ‘Estou cantando para o sol, este boêmio maravilhoso que sempre abandona Curitiba, mas de vez em quando aparece, como hoje, todo cheio de charme‘. O velhinho estava certo. Como não era dia para ficar em casa, à tarde fui ao centro e a Feira do Largo da Ordem fervilhava. Todo mundo feliz com a volta do boêmio.

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