Quando pequeno, eu gostava de ler gibis, por volta de 1962 a 1964, idade entre 10 e 12 anos. Eu trocava gibis na frente dos cinemas de minha cidade. Nada diferente do que acontecia com outros garotos em outras cidades. Os garotos em Curitiba também trocavam gibis nos cinemas da Voluntários da Pátria e arredores. Os pais não gostavam que os garotos lessem gibis por acreditar que eles com suas histórias de assassinatos incitavam a violência. As garotas não tinham restrições de leitura porque liam revistas de fotonovelas com açucarados dramas de sofrimento e de final redentor, recheado de amor. Era o que sonhavam para si.

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Encontrar rapaz bonito, elegante, educado, bons modos e rico, que boa parte das virtudes anteriores dependiam da última. As revistas tinham os mais variados nomes: Grande Hotel, Capricho, Ilusão, Noturno, com periodicidade semanal ou quinzenal. Mas o conteúdo era quase o mesmo. Histórias de amor sob medida para suscitar suspiros e sonhos. Entrei neste assunto porque estive ontem à tarde num sebo (livraria de usados), a cem metros do jornal e encontrei uma coleção de Grande Hotel. Comprei alguns números para matar a saudade do tempo em que se fazia este tipo de revista que hoje em dia não existe, pelo menos com aquele conteúdo.

Eu escolhi alguns exemplares de 1952 por razão sentimental: nasci neste ano. E encontrei um número com dia e mês em que vim ao mundo: 11 de março. Li a revista. Seções como o correio sentimental. Como a revista era feita no Rio de Janeiro, fiquei curioso com o anúncio: ‘Sou clara, de cabelos e olhos claros, 17 anos, 1m58, sincera, carinhosa, apreciadora de literatura e de bons filmes, moro em Curitiba e quero me corresponder com rapaz jovem, distinto, simpático, sério, carinhoso, de coração nobre e sem compromissos. Assinado: Jane Powell Paranaense‘. Estas revistas tinham circulação nacional. E fiquei pensando nesta Suzanne Lorraine Burce (verdadeiro nome de Jane Powell) das Araucárias.  

Ela gostava de literatura, de filmes e queria se corresponder com jovem distinto, simpático, sério, carinhoso e de coração nobre. Se era Jane Powell, devia ser loira de cabelos curtos, sorridente e tinha olhos azuis. Um pitéu. Se fosse morena, claro, seria Dorothy Lamour ou Loretta Young. Mulherada bonita dos anos 50 e seus anseios. Eu fechei a revista e fiquei pensando. A verdadeira Jane Powell ainda está viva e mora em Nova York com seu quarto marido, aos 84 anos. E a similar curitibana, por onde andará a nossa Jane Powell, que procurava um grande amor no dia em que nasci?

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Será que morreu? Será que ainda está na cidade? Será que casou e teve penca de filhos e estes lhe deram uma penca ainda maior de netos? Não sei. E ninguém saberá pois já na época o nome da atriz americana foi usado para proteger a identidade da moça curitibana que procurava um grande amor pelo Brasil. Assim como outras moças de seu tempo e ainda hoje as que passam apressadas pelas ruas do centro da cidade. Muitas ainda mais belas que Jane Powell, a de Hollywood. Hoje não há mais revista para anunciar o sonho de encontrar a alma gêmea – tem a internet com suas armadilhas e seus enganos. O que não significa que o sonho acabou. Morrem as pessoas que os sonham, mas os sonhos continuam vivos pelas ruas da cidade.