Eu tenho um amigo que me garantiu que Curitiba é a Capital Mundial do Pastel Gostoso. Quando se fala em pastel existem duas categorias. O pastel gostoso e os outros – que se subdividem em subcategorias infinitas e infames, de pastel gorduroso, pastel sem carne, pastel seco, pastel frio, pastel pistoleiro (que o sujeito come e cai duro), enfim, todos nascidos com a marca de “pastel mal feito”. Como meu amigo peregrina pelo Brasil afora fazendo trilhas e ralis, eu deduzi que a opinião dele tem mais um caráter empírico que intuitivo. Ou seja, ele sabe do que está falando.

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Depois que ele disse isto, eu pesquisei sobre o pastel para não falar sem conhecimento de causa. E fiquei besta. O pastel é digno de verdadeiros eruditos na arte culinária. Para quem não sabe, o pastel foi inventado no Brasil nos anos 40 – eu achava que fosse coisa de árabes. Mais precisamente em Santos. Foi obra de japoneses. No caso, descendentes. Que chegaram ao Brasil e usaram recheios tipicamente nativos e massa diferenciada que em sua composição usava cachaça. Mas uma contribuição nipônica para valorizar a nossa “mardita”pinga. A receita pegou como praga no Antigo Egito. E se espalhou por São Paulo, nas feiras-livres e depois pelo resto do país.

De tal forma que nos anos 50, o pastel era consumido em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, nas cercanias do antigo abrigo de bonde de Santa Tereza. Nos anos 60, o pastel chegou ao sul do Brasil. A primeira pastelaria do Sul do Brasil teria sido instalada em Maringá, no Paraná, em 1962 – se não me falha a memória na Estação Rodoviária. O costume espalhou-se nos anos 70 para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nos anos 70, foi criada a primeira pastelaria de Blumenau. Nestas alturas, Curitiba já investia pesado na produção pasteleira.

O pastel se tornou tão popular que até virou gíria erótica. Pastel de vento, por exemplo, não é vendido nas feiras, mas, da mesma forma, é muito apreciado por mancebos, varões e viragos. Mas claro que o pastel não teve origem espontânea. Parodiando Charles Darwin, o pastel descende da gyoza ou guioza, originariamente alimento milenar chinês, que consiste de fino invólucro de massa, recheado com carne moída e ou legumes, que é selado por pressão nas extremidades e depois cozido ou frito. Os japoneses entraram em contato com o alimento quando invadiram a Manchúria, na Segunda Guerra Mundial. Eles se tornaram os mais vorazes devoradores de pastéis do planeta, além de levarem o hábito para o Japão.

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As estatísticas informais sobre consumo mundial de pastel garantem que há três décadas os japoneses perderam a primazia entre os maiores comedores de pastéis para os brasileiros. Em matéria de matar um pastel, principalmente se tiver ajuda de refrigerante, ninguém é mais letal que um patrício faminto. Assim, na próxima vez que você for a uma feira livre comer um pastel, meu caro leitor, não pense que está simplesmente deglutindo um alimento gostoso, mas entrando em contato com uma tradição cultural e culinária complexa que tem uma longa história e percurso vasto tanto temporal quanto geográfico. E termino esta coluna de hoje pedindo aos representantes do povo que prestem um reconhecimento a esta preferência nacional e institua o Dia Internacional do Pastel.