O uso de peruca é antigo. Não sei qual maníaco teve a ideia de inventar este negócio, mas o certo é que a peruca já teve prestígio e por mais que a considere um acessório ridículo, ainda tem adeptos. Já teve dias melhores. Já fascinou reis franceses que a usavam como lustre pálido sobre a cabeça. Alguns estudiosos dizem que a coisa começou para proteger o couro cabeludo no inverno, mas na antiga Roma as mulheres que desejavam ser loiras, usavam o acessório para impressionar generais que vinham da guerra, loucos por uma aventura amorosa com uma romana loira. E como não havia romana loira para todo mundo, as perucas resolveram o problema.
As primeiras perucas foram feitas de crinas de cavalo e de bode. Embora eu considere ainda hoje a peruca um negócio estranho, admito que no cinema e no teatro seu uso é fundamental – a não ser que o personagem seja careca. Agora, fora dos palcos, é preciso noção. Não sei de que, mas é preciso. Peruca é como vestido longo vermelho que algumas moças ingênuas usam ao meio dia de segunda-feira de sol em plena Rua XV. Com salto agulha. Aquilo está fora de lugar, horário e ocasião. Peruca é a mesma coisa. Este raciocínio eu desenvolvi durante os últimos oito minutos de uma viagem do Parque São Lourenço até a praça Tiradentes, no interior de um Jardim Chaparral, em cujo trajeto convivi com um senhor de aproximadamente 70 anos, com cara de galã dos anos 20, com uma peruca loira reluzente. Eu sentei ao lado dele.
O trânsito não estava bom e o motorista para equilibrar velocidade e tempo, para chegar ao destino o mais próximo do horário, recorreu ao método de acelerar e frear ao mesmo tempo, sem levar em conta que no interior do ônibus, todo mundo, por conta da lei da inércia, incorporava espíritos de velhos sambistas da Mangueira e se requebravam querendo ou não. Nota dez em evolução, harmonia e conjunto. Ninguém ficou incólume. Eu não gostava, mas o senhor ao meu lado menos ainda. Se me irritei, a irritação diminuiu ao ver o velho com medo de a peruca cair. Ela movia perigosa na cabeça dele. Aquilo ficava cômico. Se existe arte para usar peruca num Jardim Chaparral atrasado num trânsito caótico, o velho da peruca loira desconhecia. A cada tranco do ônibus a peruca balançava. E ele nervoso.
Eu comecei a temer uma freada brusca que fizesse a peruca saltar no meu colo. Feito perereca. Não sei por que, mas a ideia da peruca no meu colo me deu pânico. Talvez porque eu não queria ver o velho sem peruca – ou porque temia projetar imagem obscena. No entanto, meus temores foram em vão: mais adiante o trânsito melhorou, o motorista não recorreu mais a técnicas truculentas e a viagem prosseguiu sem sobressaltos e sem saltos de peruca. O comandante do Jardim Chaparral nos conduziu até o ponto final. Todos salvos, incluindo o velho e a peruca loira. Ele foi o primeiro a pular do banco e a avançar para a porta. Uma vez na calçada, ajeitou a peruca. E foi embora faceiro como um Paul Newman do Jardim Chaparral. A lição que tirei do episódio foi a de que não é fácil usar peruca, destas que parecem tigela solta sobre a cabeça, num ônibus urbano. E acho que antes de usar este troço, o sujeito tinha que passar por um aprendizado e fazer teste de habilidade para não ficar nervoso na hora do perigo.