Texto escrito pelo jornalista Miguel Andrade

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Benedito acordou cedo como de costume. Tinha o olhar ensimesmado na direção do curral das vacas, mas não as enxergava: estava mergulhado em pensamentos. – O que houve, meu velho?, interrompeu Ana, a mulher. Benedito saiu do transe e respondeu com voz meio pastosa: – Tive aquele sonho novamente! ‘Cruz credo!‘, disse Ana.

Muita gente torcia para ter pesadelos recorrentes, do tipo desse que perseguia o Benedito. No sonho, Benedito via um homem de compleição pequena, olhos vivos, sempre sério. O sujeito não falava nada e pelas vestes e marcas que tinha no corpo, Benedito deduziu se tratar de um escravo. Pelo modo como o homem se movia – havia uma espécie de névoa sob seus pés – sobre a qual parecia deslizar, Benedito sabia que o homem estava morto e era a sua alma tentando se comunicar com ele.

Era sempre igual: Benedito estava na lida na roça, de repente surgia o sujeito do nada, vindo de um pequeno capão, fazia sinal para que o seguisse. Num instante, chegavam a uma grande fazenda abandonada. Caminhavam até o pé de uma figueira centenária, o homem parava e ficava olhando fixo para as raízes, como a dizer para que cavasse ali.

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Havia boatos de que o sinhô que reinou por aquelas bandas por décadas, havia enterrado uma fortuna e fez um escravo jurar que cuidaria do tesouro. Depois mandou matá-lo. Diz uma lenda que o juramento deixou a alma do pobre homem presa ao tesouro. Para se livrar da maldição, o espírito teria que encontrar uma pessoa justa e entregar tesouro a ela. E a ‘vítima‘ foi o Benedito.

Pois de hoje essa história não passaria, avisou Benedito. Mediu a hora pelo sol, quando calculou ser ‘cinco e pouco‘ da tarde, deu ordem à numerosa prole que o apoiava na lida do campo para encerrar as atividades, recolher as ferramentas, alimentar e dar água para os animais e se preparar para o jantar. Dito isso pegou o velho Sereno, um cavalo manso que era o xodó da família, e deu de rédeas rumo à fazenda abandonada. Chegou lá ainda com a luz do dia. Tudo deserto. Na casa grande, não se arriscou a entrar. Mirou-a ao longe, estava toda trancada. Foi logo em direção à figueira. Sereno ficou inquieto e o jeito foi amarrar o bicho.

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O pé da figueira estava tão esburacado que era um milagre aquela gigante não ter caído. Muita gente tinha ouvido falar da lenda e os caçadores de tesouro, perfuraram todo o terreno. Benedito olhou ao redor e nem sinal do escravo. Pensou consigo, que bobagem! Montou no Sereno e foi para casa. Começo de noite, a grande família se amontoou na cozinha, à espera do depoimento de Benedito, mas só Ana tinha liberdade para inquiri-lo. – E então?, cobrou. – É tudo como no sonho, respondeu Benedito, mas lembrou que cavocaram tanto por lá, que se existisse algum tesouro, alguém já havia encontrado.

Nem bem terminou de dizer a frase e o barulho de dezenas de moedas correndo no assoalho de madeira inundou o ambiente. Pegaram os lampiões, mas não viam nada. E o som do que pareciam ser moedas invisíveis, corriam pelas tábuas. Aquela noite foi de vigília na fazenda de Benedito. No outro dia ele e Ana foram cedo conversar com o vigário, fizeram rezar uma missa em intenção daquela alma e esqueceram da história. Benedito continuava acreditando que os tesouros nasciam da terra sim, mas é preciso suar todos os dias para tirá-lo de lá aos pouquinhos. Assim ele tinha aprendido com seus pais e era esse o legado que passava aos filhos.

*Texto escrito por Miguel Ângelo de Andrade durante a ausência de Edilson Pereira.