Uma das coisas mais absurdas que eu vi nas ruas da cidade em todos estes anos que moro em Curitiba foi o roubo das vacas do Cowparade. Isto foi há alguns anos, no final de 2006, se não me engano. Roubaram três vacas que não tinham carne, nem davam leite e muito menos mugiam. Aliás, nem saiam do lugar, não apitavam na curva, pobres vacas. Mas foram roubadas, como as vacas do Velho Oeste, pelos amigos do alheio. E uma delas perto de minha casa, no parque São Lourenço. Como a Cowparade era uma promoção internacional, foi um escândalo: até então em nenhum lugar do mundo os quadrúpedes inertes foram surrupiados. Ao contrário, eram tratados com carinho.
E nem foi possível saber se elas foram para o brejo – ou, como dizem os portugueses, para a charneca. Uma delas parece que foi achada num depósito, no fundo de uma casa, me parece que no Seminário. Ostentava sinais de violência. Tem que ser muito doido para roubar uma vaca da Cowparade. Eu me lembrei que houve um tempo que roubo de vaca não era novidade em Curitiba e arrabaldes – mas isto foi há cem anos ou mais. Era até comum roubar vacas e cavalos. As primeiras viravam bifes clandestinos e os segundos eram vendidos no interior de Santa Catarina, para conduzir os soldados na anunciada batalha do fim do mundo, no Irany, prognosticada pelo monge João Maria, do Contestado. Um lugar onde ninguém ousava se embrenhar por causa dos fanáticos – ou dos caboclos que viriam a ser fanáticos. Mas vacas e cavalos eram bem vindos.
As vacas da Cowparade vieram muito depois para cá. Estes dias fiquei com saudade das vacas da Cowparade. Eram silenciosas, coloridas, bonitas, não defecavam, não comiam, não se mexiam, não ameaçavam e as crianças gostavam delas. Os artistas da cidade ficavam orgulhosos em dar um toque pop-bovino para a cena urbana. Eu acho que o roubo das vacas coloridas e o consequente sumiço delas da cena curitibana são capítulos de uma mesma história. Depois que roubaram as vacas a Cowparade não veio mais para a cidade. Uma pena. Eu acho que este foi um dos últimos capítulos momentosos da relação bonina com a metrópole. Uma pena.
A metrópole não tem paciência com as vacas, com exceção de santuários inesperados como a propriedade na avenida Anita Garibaldi, sobre a qual já escrevi. Se as vacas não dessem leite e carne, provavelmente, teriam o mesmo destino dos dinossauros: iam ser extintas ou virar personagens de histórias em quadrinhos. Uma injustiça com estes quadrúpedes que fazem parte da história da humanidade e ainda hoje estão presentes em nossas vidas através de ditados e provérbios: ‘Dou uma vaca para não entrar numa briga e dou um rebanho para não sair‘. Ou na síntese estratégica expressão ‘boi de piranha‘, aquele que existe para enganar os adversários.
A vaca já teve até importância esportiva: o drible da vaca surgiu porque nas partidas de futebol disputadas em pastos e nas charnecas, o futebolista, além do adversário, tinha também que driblar a vaca, que não estava interessada na peleja e pastava acintosamente. Por tudo isto, o sumiço da vaca da paisagem urbana é uma injustiça, para não dizer algo ainda mais revoltante. Melhor sorte tiveram as vacas de Burundi, na África. Elas tinham nomes próprios e os pastores recitavam poesias para elas. Poesias bucólicas, provavelmente.