O Sr. Lustosa dança cancan para viver melhor

Eu fiquei sabendo que ele se chamava Sr. Lustosa há alguns anos por causa do Negro do Coxa, personagem popular na região do Abranches e Ahu e que há bom tempo não vejo. Eu não sei o nome do Negro do Coxa. Sei que sempre anda com a camisa do Coritiba. A tradicional, com duas faixas verdes horizontais. Ele é moreno, alto e quase sempre sorri. Há quinze anos eu o via quase todos os dias e naquele tempo ele estava quase sempre com um rádio de pilha – não sei se funcionava, mas ele passava rápido com expressão severa de quem ouvia o noticiário.

Outras vezes ele ria à toa. E quando falava, era sempre a mesma frase: “São muitas emoções!”. Ele me pareceu uma figura inofensiva, porém andava na ciclovia ou nas ruas das redondezas como tivesse pressa. Possivelmente de tanto nos encontrarmos ele passou e me cumprimentar: “Bom dia, meu senhor. Muito bom dia!”. Em uma ocasião, enquanto ele passava pela ciclovia, ouvimos um ruído de respiração ofegante. Quando olhamos, era um homem alto, jovem e muito gordo, que se arrastava em nossa direção penosamente, suando por todos os poros. Parecia que ia morrer na nossa frente ou no máximo a cem metros adiante.

Eu o olhei assustado, temendo que o homem se desequilibrasse com o próprio peso e caísse no rio Belém. Ia ser um transtorno. Seria preciso um guincho para retirá-lo. Eu prognostiquei: “Este louco vai morrer de enfarte na ciclovia”. O Negro do Coxa ergueu a cabeça e disse respeitoso: “Bom dia, Sr. Lustosa!”. O homem arfou bom dia de volta e foi em frente. Eu não daria importância ao Sr. Lustosa não fosse ele muito gordo – eu achava que ele ia morrer antes de ficar magro – e a um fato que aconteceu depois daquele dia. Eu passei a ver o Sr. Lustosa com frequência. Quase todas as manhãs. Ele era gordo e barrigudo. E a cada mês e ano ele foi ficando mais magro. Até que há dois anos um milagre aconteceu: a enorme pança dele sumiu. Ele ficou magro e simpático. Mas não parou de correr.

Foi aí que eu soube de mais duas coisas. Uma não relevante: o nome dele era Castor. O guarda de uma casa grã-fina me disse: “O Sr. Castor Lustosa é advogado. O médico disse para ele perder peso, caso contrário ele ia morrer. Ele perdeu cinquenta e cinco quilos”. O guarda me olhou achando que eu fosse dizer que era mentira, mas eu não disse nada porque testemunhei o sumiço de toda banha do corpo do Sr. Lustosa. E achei aquilo uma façanha. Um dos maiores desafios do homem moderno é perder peso – da mulher moderna também. Agora o Sr. Castor Lustosa estava lépido, ágil, leve e não ofegava.

Outra coisa que o guarda disse foi cômica: “Eu sei que à noite o Sr. Lustosa dança cancan em casa. Por isso ele está fino que nem bailarina. Este não morre nunca”. Eu fiquei em dúvida. Eu sempre achei que cancan fosse dança sensual de mulheres de cabaré. Mas desconfiei que o guarda tivesse razão. Hoje em dia as pessoas recorrem a tantos métodos alternativos para se exercitarem que o cancan bem que poderia ser mais um. O Sr. Lustosa dança cancan para viver com saúde e mais tempo. À noite, quando eu dormi, eu tive pesadelos com o Sr. Lustosa. Eu o via dançando no Moulin Rouge. Mas, ele não estava com as pernas bonitas protegidas por meias de seda. Ele vestia terno amarelo e tocava contrabaixo. Saracoteava e era feliz.

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