Eu me levantei ontem de manhã antes da chuva fina e fui intimado pela cachorra, uma cocker spaniel preta, a fazer o nosso passeio matinal que inclui, quase sempre, uma volta pelo parque São Lourenço. Os animais têm faro especial para as mudanças do tempo. Munido de papel e saquinho plástico para recolher os dejetos fecais que ela deixasse pelo caminho, eu saí de casa. Era uma manhã fria e poucas pessoas iam em direção ao parque; eu preferi a direção oposta. Mas a cachorra fez a volta e me arrastou em direção do parque. No caminho ela fez o que devia e eu também, que era recolher e jogar no lixo.
Ao me aproximar da entrada do parque pela Mateus Leme, vi um conhecido de nome Anésio que passou de bicicleta. Eu entrei no parque e fui em frente com a cachorra; ele parou na ponte e me esperou. Conversamos, enquanto a cachorra latia; ele contou uma história meio maluca. “Você lembra daquele escultor de obras sacras?”. Eu disse que lembrava. “Ele gravou um disco de vinil em inglês”. Aquilo parecia piada, mas fingi achar normal um escultor de peças sacras gravar disco em inglês. “O disco é uma lamentação existencial danada”, acrescentou Anésio, sem descer da bicicleta.
Eu pensei que a história acabava aí, mas ela evoluiu de forma surpreendente. “O disco dele foi descoberto por um especialista na Bélgica que o considerou um dos cem maiores de todos os tempos no gênero música psicodélica”, disse Anésio. Um disco que quase ninguém conhecia. O escultor de peças sacra gravou disco que virou peça rara. “Mais que rara, esse disco que ninguém dava o menor valor para ele agora está valendo mais de 300 dólares”, confessou Anésio. Ele estava chateado porque teve um exemplar e antes de a cotação do disco subir nas alturas, ele vendeu por 100 reais.
Anésio agora está empenhado em encontrar o tal escultor, porque ficou sabendo que ele aparece na Rua XV de vez em quando para expor seus trabalhos, não musicais, claro, mas de esculturas. Mas Anésio está com uma pequena dificuldade: “Eu o conheço, mas me disseram que ele tem um sósia. E que este sósia também anda por aí dizendo que é escultor. Eu tenho medo de abordar o sujeito e em vez do escultor que a gente conhece, eu encontrar o sósia. Eu não sei como reagir diante do sósia de uma pessoa”. A história parecia tão psicodélica quanto o disco do escultor de peças sacras, embora não fosse lamuriante e tampouco em inglês.
No entanto, Anésio não deixava de ter alguma razão. Não há nada pior que encontrar um sósia quando a gente procura o original. É alguém que você julga conhecer, mas é um estranho. Como tivesse lido meus pensamentos, Anésio de repente olhou ao redor, disse que uma chuva fina estava vindo por aí e que ele precisava ir embora. Ele foi pedalando em direção ao centro da cidade. E me deixou na ponte do parque São Lourenço com a cachorra, enquanto eu ficava divagando com meus botões se Anésio era realmente o Anésio que eu conhecia ou um sósia dele, como havia o sósia do pintor de peças sacras, que gravou um disco psicodélico que virou peça rara e que de vez em quando aparece na rua XV para expor. Bem, fosse o que fosse, achei que não tinha muita importância. O importante era ir para casa, porque Anésio e a cachorra tinham razão: os pingos de chuva começaram a cair.