O sermão do japonês na estação tubo

O curitibano é o mais estóico dos brasileiros. Ele não ouve o que não quer, não vê o que não interessa e não fala pelos cotovelos, principalmente na frente de estranhos. Uma manhã destas, quando o sol apareceu de surpresa sobre a cidade, eu vim do litoral, desci na rodoferroviária, cujas obras já são um grande exemplo de que o curitibano é um estóico: ninguém reclama da muvuca e transtornos que ela causa, ao contrário, parece compreender que embora aquilo demore, no final é para melhorar um serviço para a coletividade. Então, antes de vir trabalhar, eu fui ao mercado municipal tomar café com leite quente e depois entrei na estação tubo para pegar o Campo Comprido-Centenário, em direção da Praça Rui Barbosa.

Quando entrei na estação tubo, a cobradora ouvia em silêncio quase solene um falante velho japonês – coisa rara, pois japonês quase sempre é calado. Meio arcado, barba por fazer e baba branca e seca grudada no queixo, o velho lembrava Dersu Uzala, personagem central de um filme de Akira Kurosawa. Ele usava jaqueta verde, destas de clubes americanos de basquetebol, boné e suas mãos magras e ossudas grudavam três grandes sacos cheios de bugigangas, que embora grandes, pareciam leves. Ele falava alto, compulsivo, sobre tudo. Mudava de assunto em todo momento: era simplesmente enciclopédico. Ele falava das ervas aromáticas de Guaraqueçaba, dos efeitos sobre as mocinhas de um revigorante banho com sabão medicinal, até sobre as tábuas que Moisés trouxe do Monte Sinai.

Havia algo errado no velhinho. Mas as pessoas que esperavam o expresso e as que chegavam à estação tubo fingiam não ouvir, não ver e não falavam. A cobradora, por prudência, continuava a ouvir solene. Todos em silêncio, com seus pensamentos íntimos. Duas mulheres entraram e para não contrariar o velho japonês, conversaram em voz baixa. Eram as únicas que, agora, além do velhinho, falavam alguma coisa. Era possível ouvir uma e outra palavra delas. Palavras captadas pelo velhinho, que respondia de forma aleatória.

“Baboseira. Eu não falo baboseira. Está lá na bíblia católica. Romanos, 8”. De onde o velhinho tirou aquilo, ninguém sabia e não tinha interesse em saber. Outra palavra solta foi transformada em fúria. “Moça bonita? Toda moça bonita devia ser formada e ter um bom emprego”. Era engraçado e ao mesmo tempo constrangedor. O ônibus chegou lotado e o velho japonês entrou com seus sacos de materiais recolhidos no lixo, principalmente latas de alumínio, para pavor dos usuários próximos da porta, no interior do ônibus.

Eu achei prudente esperar o próximo expresso. Depois que o velhinho se foi uma senhora ao meu lado que teve a mesma idéia de esperar o ônibus seguinte, saiu de seu silêncio. Ela me olhou e disse com serenidade, compreensiva, num tom educado: “Esquizofrenia. Pobres pessoas! Os esquizofrênicos falam muito e recolhem lixo.” Eu achei que aquilo era apenas uma teoria sem fundamento científico e não disse nada. Mas não deixei de pensar nas palavras da mulher, que associava falar demais com recolher coisas no lixo. Falar demais talvez seja um exercício tão abjeto quanto recolher coisas no lixo. Ou seria o contrário? Falar demais é jogar palavras no lixo. Era o tipo que dúvida que o velhinho japonês certamente saberia explicar. Mas ele já tinha ido embora.

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