A verdade é que nunca saberei exatamente o que aconteceu, porque o caso foi parar no distrito e o delegado, na melhor das hipóteses, abriu investigação para apurar o que houve, de antemão desconfiado que aquilo não ia levar a lugar nenhum. O que sei e o que vi foi o seguinte: na tarde de quarta-feira, por volta das 16 horas, a Sra. Irenka Wisniewski entrou no Interbairros II. Era uma velha meio arcada, diria de 75 anos. Aposentada, como veremos a seguir. Viúva. Usava óculos, camisa verde por baixo da blusa bege. A saia marrom ia até o tornozelo. Ela calçava uma espécie de alpargatas preta. A velha estava furiosa. Parecia ter visto o cão sem roupa de baixo. E também sem roupa de cima.

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Ela entrou pela porta da frente e foi para o lado do motorista, o Sr. Mariano. Ela chegou e disse como fosse íntima do homem, que se desdobrou para ouvi-la ao mesmo tempo em que prestava atenção no trânsito. Ele não estava dirigindo um carrinho de pipocas, mas um Interbairros II, a salsichona verde que serpenteia pela cidade. O cara não pode vacilar. Afinal, tem gente boa no trânsito, mas basta um maluco para a coisa virar lambança. O Sr. Mariano cumpria as duas tarefas muito bem na minha avaliação de especialista em andar de ônibus na cidade. E não precisa ser especialista para saber que tem muito ônibus sucateado por aí e todo cuidado é pouco. Mas esta é outra história.

A velha disse: ‘A vagabunda me roubou, senhor motorista. Eu quero ir para o distrito. Eu vou abrir processo‘. Ela tremia. E relatou o caso. A Sra. Wisniewski alegou que a moça de uma casa lotérica furtou sua carteira de identidade, depois que ela fez um saque de 200 reais. A velha pegou o dinheiro, deixou a casa lotérica e então percebeu que estava sem carteira de identidade. ‘Sem os números da carteira eu não tiro a minha aposentadoria‘. Ela voltou para a casa lotérica e a moça disse que não sabia de nada. Foi então que ela viu o Interbairros II, saiu correndo e entrou nele como um foguete.

O motorista, para não passar imagem de quem não se interessava pelo drama da velha, perguntou: ‘Mas a senhora não perdeu o documento depois que saiu da lotérica?‘ A pergunta enfezou a velha: ‘Nunca na história da minha vida perdi um documento. A vagabunda roubou‘. O motorista desistiu. A velha queria saber onde ficava o distrito. Na Rua Jacarezinho, depois da Pastoral da Criança, ele disse: ‘Fica lá na frente‘.

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A mulher me olhou com cara de choro: ‘Ontem fez 11 anos que meu marido morreu. Ah, se ele estivesse aqui!‘ Eu fiquei quieto; ela acrescentou: ‘O senhor não vai acreditar. Minha mãe morreu há 33 anos, 11 anos depois minha irmã morreu e 11 anos mais tarde foi a vez de meu marido‘. A conta macabra me arrepiou. Por aquele raciocínio a mulher estava vivendo seus últimos dias. Mas não disse nada. Em silêncio, desejei boa sorte para ela no distrito. O delegado que dirimisse a questão. A identidade era importante para ela. Quando ela foi embora, o motorista balançou o ombro e disse: ‘Eu não sei. Mas se fosse apostar, eu diria que ela perdeu o documento‘. Pode ser. Mas quem ia resolver o caso, naturalmente, era um competente investigador. O delegado nem desconfiava, mas em alguns minutos ia cair na mesa dele o misterioso caso da velha na lotérica.