O homem que tomava chimarrão de coador

Pouca gente conversa em ônibus lotado. A observação não vale para quem conecta celular ao ouvido e fala feito sonâmbulo – se é que sonâmbulo fala. Ônibus lotado irrita e as pessoas estão sós; quando estão com alguém não tem paciência nem tranqüilidade para falar: o importante é chegar logo ao destino. Em ônibus vazio, o papo é outro. Ainda mais fora de horário de pico, com lugares vazios. Bem acomodadas, as pessoas falam. E aparecem histórias curiosas. Como a que ouvi num ligeirinho Barreirinha-São José.

Waldemar Magrão mora no Cachoeira e casou com a gaúcha Adriane Holzfäller. Aliás, a conversa começou quando ele tentou explicar o sobrenome da mulher. Que apesar de ser da Serra Gaúcha, como toda boa sulista gosta de matear. Erva para chimarrão não é crime, nem contravenção. E bombear não é pecado. A mulher era bonita e Magrão pegou gostou por chimarrão e Noel Guarany. As duas coisas entraram na vida dele de intrusas, para agradar a mulher, que ele era de Ribeirão Preto e gostava de café e pingado. Como o primo Aristóteles, que veio visitá-lo no fim do ano passado.

Magrão desconfiou que o primo se encantou com a beleza de Adriana porque desandou matear e a ouvir Noel Guarany. Magrão ficou esperto para a admiração não ir longe demais. “Esses caipiras de São Paulo acham que matear na mesma cuia, metendo a boca na mesma bomba é algum tipo de sacanagem”, disse. No entanto, ele percebeu que o primo mateava e fazia cara feia para tomar o chimarrão. Quando Adriana se afastou, o primo confidenciou: “Este troço é gostoso, mas o pozinho que fica na garganta é o fim da picada!”. Magrão disse: “É chimarrão primo! É assim mesmo”. O primo olhou para ver se Adriana não vinha: “Não tem jeito de botar um pouco de açucar? É amargo demais!”. Magrão respondeu: “Não. É assim mesmo”. O primo choramingou: “Nem adoçante?”. Magrão foi duro: “Sem adoçante”. Adriana apareceu e a conversa mixou.

Nesta altura do papo no ônibus, chegamos ao Guadalupe onde eu ia descer. Mas queria saber o final e deixei para descer no Paiol. Magrão contou que o primo voltou para Ribeirão Preto, levou um lote de erva-mate, produto que existe em qualquer mercado de cidade grande, mas ele queria a erva de Curitiba. A erva da Adriana. Magrão ficou esperto. Tempo depois o primo convidou Magrão para visitá-lo em Ribeirão Preto. “Aproveitei que Adriana foi ver a mãe doente em Porto Alegre e fui. Eu não ia levar a Adriana. Seguro morreu de velho”, disse Magrão. Ele chegou em Ribeirão Preto e soube que o primo fazia sucesso no bairro como falso gaúcho. Tomava mate de cuia e tudo e pegou mania de falar que nem gaúcho. “Eu fiquei impressionado”, disse Magrão.

Magrão foi matear na cuia do primo e se assustou. Não tinha pó e quando ele puxou o mate na bomba veio um troço doce. Ele perguntou: “Que você fez com o chimarrão, primo?”. O primo disse que fez adaptações para o gosto de um paulista do interior. “Primeiro eu passo o mate no coador. E, depois, eu coloco algumas gotas de adoçante. Fica um espetáculo!”. Magrão disse: “Você ficou louco?”. O primo respondeu: “Magrão, mate é que nem mulher, cada um faz do jeito que quer”. Magrão pensou: “Se a Adriana visse aquilo ia ter briga feia!”. Eu nem quis ouvir o resto. Depois daquela eu desci no Paiol para pegar o ônibus de volta para o Guadalupe.

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